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domingo, 14 de dezembro de 2008

VIAGEM SEM DESTINO RODANDO PELO CENTRO NORTE DA TAILÂNDIA -SEGUNDA PERNA

Segunda Perna
Noites frescas em Lopburi e sem necessidade de usar o arcondicionado durante o sono do justo.

O "Lop Buri Inn" (o hotel dos macacos) uma unidade hoteleira de 3 estrelas, com excelente serviço, a preço convidativo, de 700 baht, a diária (uns 15 euros), incluindo breakfast.
Hospedo-me neste hotel há uns 16 anos e, por isto, favoreço de um desconto especial.

No salão da recepção vamos encontrar, umas escadas que subindo-as, no primeiro andar situa-se a "Sala de Maria Pina de Guiomar, nome de uma lusa japonesa que viveu dias felizes e trágicos, em Lop Buri de quando esposa do grego Constantino Falcão, chegando, este, a assumir a pasta de primeiro ministro no reinado do Rai Narai.

Recomendo: um clique http://aquitailandia.blogspot.com/2007/01/maria-de-guiomar.html onde se encontra a história da infeliz senhora que viria acabar os seus dias no "Ban Portuguete" (Ayuthaya Aldeia dos Portugueses) e ali sepultada.

Nesta viagem não vim para escrever nada relacionado com a história, do passado, desta simpática cidade, Lop Buri, onde se abraçaram duas religiões a hindu e a budista e até à data, presente, têm vivido em perfeita harmonia.

O meu propósito é o de inserir nesta parte a descrição do "Mosteiro Thamkrabok", a 20 quilómetros de Lopburi e situado no sopé dos contrafortes de cordilheiras de altas montanhas de pedra calcária.

Visitei o mosteiro, pela primeira vez, há 14 anos e ali fiz uma reportagem que foi inserida no semanário "Noticias de Gouveia" e uma texto que envei para a Agência Lusa que seguiria para linha noticiosa.

Mercê dessa notícia um jornalista da SIC, acompanhado de operador de imagens, pelas informações que lhe forneci em Banguecoque, deslocou-se ao local e fez uma reportagem relativa ao que se passava no "Mosteiro Thamkrabok".

Templos/mosteiros budistas na Tailândia há uns milhares largos erigidos do Sul ao Norte.

Todos praticam as boas obras em favor das populações, desde ao ensino das primeiras letras; o conforto espiritual; o remédio para aliviar um male que os afecte; a reunião de pessoas em festas religiosas;a cremação dos defuntos; a pessoa que se despediu do mundo, material e fica por ali, sem ser em clausura, o resto da sua vida, onde há sempre um prato de arroz para se alimentar e uma cama para dormir.

O mundo interceiro deixa de existir naquelas casa e a humildade, a fraternidade e o amor toma-lhe o lugar.

O "Mosterio Thmakrabok" é bem um exemplo disto, porque naquele santuário aos pés de picos de montanhas, forradas de vegetação, pratica-se a solidariedade sem escolher credos, cores ou etnias.

Desde há mais de uma vintena de anos neste mosteiro, se pratica a desintoxicação de jovems e pessoas de meia idade vitímas da toxicodependência que já em artigos antes lhe dei o nome: "Templo dos Drogados".

Hoje verifico que o genérico foi designado, erradamente, mas deveria ser: "Templo da Solidariedade".

Este templo nasceu por alturas do conflito a guerra do Vietname e numa cave natural, de um dos picos, se abrigou um monge nascido no Laos e, certamente a sonhar que que no pequeno vale havia de construir um templo.

O lugar na altura que o monge ali se isolou, na década sessenta do século passado, do mundo e da sociedade o local é extremamente isolado com alguns aldeões em redor que viviam entre a fertilidade das terras.

Dá-se o início da guerra do Vietname e a CIA americana usa e incita os laocianos, da etnia Hmong, das montanhas a dedicarem-se à plantação da papoila, para produzir o ópio e depois refinada em heroína.

O objectivo da CIA seria o de vencer a guerra drogando os soldados vietnamitas e as populações com o fumo do ópio.

Pequenas aeronaves da CIA transportam do Laos para o Vietname a terrivel droga, que embora provocando algum efeito, na população e tropas vietnamitas, não foi o esperado quando projectado. Milhares de soldados americanos viriam a ficar toxicodependentes e uma herança de fracas recordações para os americanos.

O feitiço virou-se contra o feiticeiro, além dos soldados americanos; as próprias populaçoes da etnia Hmong, das montanhas, incluindo as crianças, viriam a ficar toxicodependentes do fumo do ópio.

São perseguidas pelo Governo do Laos, porque estiveram ao lado dos americanos, ajudandando-os na guerra.

Começa essa gente, uns largos milhares, a fugir das montanhas do Laos e a refugiar-se na Tailândia.

Na área do templo "Thamkrabok" refugiam-se mais de 20 mil sob a protecção do monge, fundador, Luang Paw.

Esta população, perseguida, pelo regime de linha dura do Laos chegam nas condições mais miseráveis que se possam imagiar, que testemunhamos, em 1995 de quando ali estivemos numa das habituais visitas.

Consegui depois de muito pedir a Luang Paw que me autorizasse a visitar o campo onde se instalava essa gente.

Foi uma das minhas várias, experiências, a mais chocantes que viria deparar as pessoas fugiam de mim e as crianças corriam apavoradas à minha presença.

Gente atemorizada do passado vivido e a barbárie presenciada no Laos a que a todo custo pretendem salvar suas vidas do rancor que ficou depois de terminar a guerra.

Depois do drama da pobreza dos refugiados havia outro que era o de ter chegado: adultos, jovens e crianças toxicodependentes.

As crianças, desde tenra idade tinha enalado o fumo do ópio que se dispersava pela atmosfera e estão assim uma população de cerca de 20 mil opiómana.

Luang Paw está a braços não só acolher estes milhares de refugiados (onde o Governo tailandês contribuiu com a juda financeira com a doação de milhões de baht), como desintoxicá-los da droga que traziam no corpo.

Recorreu ao medicamento herbal, cultivado nas redondezas do templo e produzir num laboratório, rústico, uma "mezinha" que limpasse, a sujidade do fumo do ópio, no corpo a gente da sua etnia e a regenerasse para a vida.

Conseguiu-o com o remédio caseira e muitos banhos de sauna, montada numa barraca, para fazer transpirar os corpos e a droga sair-lhe pelos poros da pele.

Outra história aconteceu antes dos refugiados chegarem e instalados nas redondezas do "Mosteiro Thamkrob o aparecimento de um jovem negro, mercenário, que aparece junto a Luang Paw a pedir-lhe auxilío.

Não era espiritual, porque um soldado da fortuna, vendeu a alma ao diabo e é pago para matar.

Uma história fantástica e dá a entender que os homens não nasceram maus nem sequer soldados mercenários.

Um soldado da fortuna no "adeus às armas" e este o Monge Gordon. Nasceu em Nova Iorque, na década quarenta do século passado, deambulou pela grande cidade, roubou para sobreviver, como qualquer negro da sua época; fez biscates a 100 dólares por dia.

Aos 17 anos alistou-se como mercenário nas forças do famoso líder, mercenário, o francês, Coronel Denard.

Com mais 11 camaradas são lançados de paraquedas de diferentes nacionalidades no Vietname; todos morreram e escapou o Gordon.

Fugiu do Vietname e pretende abandonar a profissão de soldado da fortuna.

Não lhe foi fácil adaptar-se a outra profissão e volta novamente alistar-se numa força de mercenários que se anexa à SWAP, da África do Sul, que lutava contra o regime do Governo branco.

Uma das missões de Gordon, na Africa do Sul, eram as de sabotagem que poderia deitar uma ponte para o curso do rio, como plantar uma mina numa estrada.

Terminou o contrato, regressa aos Estados Unidos, com os bolsos cheios de dinheiro, foi-o gastando, com os amigos, bebendo litros e mais litros de cervejas nos bares de Nova Iorque.

O dinheiro acabou-se ao mercenário Gordon e, mercenário desempregado há que procurar novo trabalho.

Agora está contratado pelo presidente Jean Claude do Haiti (Baby Doc), trabalho que lhe duraria pouco dado que os americanos terminaram com os genocídios do Baby Doc bombardenado o Haiti.

Sem trabalho o Gordon, consegue mais um o de soldado no Líbano e chega ao fim mais uma missão cumprida e a sorte de não ter sido varado pelas balas do inimigo.

O Gordon ganhou rios de dinheiro e como a um mercenário não custa a ganhar, mesmo que o soldo seja para matar, já não pretende mudar de rumo.

Todo o soldado da fortuna é um homem de guerra e de zaragatas e respeito por ele quando se encontra num bar, junto a outros camaradas bebem uns copos se algum dos clientes que por ali está levantando o "bico" sai de certeza a voar para a rua.

Claro que o Gordon também esteve envolvido em cenas de pancadaria daquelas de "criar bicho"...

Mais uma ves o Gordon, na sua carreira de soldado da fortuna, encontra-se de cotão nos bolsos e há que procurar novo trabalho.

Sabia que não lhe seria difícil...

Era mais a procura que a oferta até porque se estava na época das independências dos novos países de África e, outros movimentos revolucionários, esporádicos, no globo, necessitavam dessses homens para se oporem às autodeterminações ou ajudarem os que procuravam obtê-la.

Temos novamente o Gordon a firmar um contrato com uma agência de mercenários e agora deslocar-se-á para junto da fronteira do Laos.

A missáo seria o de se infiltrar, através deste país, no Vietnam e por lá sabotar pontes e mais aquilo que lhe fosse incumbido.

Numa manhã de um dia do ano de 1971, o Gordon saiu da cidade de Banguecoque, a guiar um pequeno camião carregado de armas de munições cujo o destino seria a fronteira entre a Tailândia e o Laos.

Recebe um mapa com o itinerário e este seria: Ayuthaya, Lop Buri, Saraburi, Korat e depois desta cidade a 400 quilómetros está no campo/base, junto à fronteira, onde ali alguém o esperaria.

As estradas na Tailândia em 1971, não as de hoje, muito más e em alguns percursos de terra.

Para perorrer 170 quilómetros a distância que separa Banguecoque ao "Mosteiro Thamkrabok" demorou um dia e chegou ao princípio da noite.

Em frente ao caminho, entre capim alto e outra vegetação, os quatro pneus do pequeno camião estão rebentados.

O Gordon não pode prosseguir viagem; não sabe o que fazer à sua vida, até porque na altura o local é deserto inabitável.

Abandona o camião, carregado de armas e munições, segue pela pequena estrada de terra que o leva ao "Mosteiro de Thamkrabok" para pedir auxílio.

Chegado lá encontra, levantado, Luang Paw e diz-lhe: "Eu esperava por ti..."

O soldado da fortuna Gordon, abandonou o camião, não mais quis saber das munições e das armas e no mosteiro, até hoje, nunca mais dali saiu.

Uma história fantástica que até daria uma longa metragem de um homem, talvez vítima da sociedade que o rodeava, que nasceu num país onde a cor era segregada.

O monge Gordon tem a seu cargo a sauna e a ligação, de estrangeiros (public relations) com o mosteiro.

O "Mosteiro Thamkrabok" acolhe gente de todo mundo , são de várias nacionalidades.

Muitos cansados da sociedade que os rodeiam e recolhem-se para sempre no santuário da montanha, onde ali vão ao encontro da paz de espírito do sossego e por lá ficam para sempre.

Vivem entre as altas montanhas e conforme as profissões que haja tido durante suas suas vidas aplica-nas ali aumentando a grandeza do mosteiro.

Construem templos, deuses de altura descomunal e até a estátua em cimento de sua Majestade o Rei da Tailândia.

Vi, ontem, um monge budista empoleirado entre a armadura de ferros que irá ser o pórtivo de um novo templo.

Outros num caminho da uma encosta a moldar santos e outras decorações que irão ornamentar, mais um templo aos pés do pico da montanha.

Toda esta gente que se recolheu no mosteiro e abandonou o mundo, servem a sociedade, o seu Deus o Lorde Buda por absolutamente nada. Junto ao templo em construção dou com um homem, de meia idade a dirigir os outros monges a calcetarem a entrada que vai seguir às escadas que do novo templo.

Naturalmente travei conversa com ele e perguntei-lhe a sua nacionalidade e o nome. O Steve de nacionalidade australiana, calculo de uns 45 anos, viveu dias felizes na Tailândia, casou com uma senhora tailandesa que lhe deu duas filhas. Mas o Steve meteu-se na heroína, perdeu a mulher, mas não perdeu os filhas, porque com poucos anos levou-as para a Austrália.

Contou-me toda a sua vida, não colocou qualquer reserva e deixou-se totografar.

Nunca mais soube de sua mulher tailandesa, mas puxou da carteira do bolso das calças e dela retirou uma fotografia e mostrou-me orgulhoso a fotografia de sua filha de 22 anos, uma jovem bonita que vive ma Austrália, sem nunca ter voltado à Tailandia.

Após as primeiras desintoxicações levadas a efeito, com éxito, na população Hmong, com curas a 100 por cento o mosteiro ganha fama e os doentes que se seguem são os tailandeses aditivos da heroína.

Depois de 1975 e ainda por anos, que se seguiram, Banguecoque era um dos pontos principais do tráfico de heroína, chegada do Triângulo Dourado (fronteiras da Birmânia, Laos e Tailândia).

Plantar a planta da papoila era corrente entre as montanhas das terras altas onde o ópio era destilado e convertido em pó branco, de alta pureza, a heroina.

Entre os pequenos vales encravados nas montanhas, mesmo com a repressão das autoridades, continuavam a progredir.

Porém na parte da Tailândia e graças à intervenção de Sua Majestade o Rei da Tailândia a cultura da papoila foi substituída pela plantação de vegetais e uma outra forma de sobrevivências das populações, tribais, do território tailandês.

Em 1992 não existiam plantações de ópio no norte da Tailândia enquanto estas continuavam a ser cultivadas na Birmânia, protegidas por um exército, privado, sob as ordens de Khun Sa.

Os toxicodependentes tailandeses começaram a ser tratados em Thamkrabok e a fama chegou ao estrangeiro.

Começa a receber doentes de vários países onde ali vão em procura do alívio de uma toxicodependência que lhes mina o ser, a personalidade e a vontade de viver.

Ao longo de duas dezenas de anos uns milhares de jovens estrangeiros foram recuperadas e devolvidos à sociedade.

Hoje um toxicodependente, Gary Devine, ainda em tratamento, dedica-se, como samaritano a incentivar jovens, europeus adictivos de drogas, a tratarem-se no templo.

Presta-lhe toda a assistência na Tailândia.

Conversei com o Dave e informou-me estar a preparar-se, espititualmente para seguir a religião budista e ficar, para sempre no mosteiro.

Aqui fica o seu contacto para os interessados: Gary Devine - Facilitor - Telefone 66 (o)87-7884613 - e-mail gdevine16@yahoo.ic website http://www.thamkrabok-monastery.org/ A cura de desintoxicação não é fácil e até violenta para quem assiste à tomada de um pequeno copo do medicamento herbal, que as paredes do estômago no ápice o absorvem e caldeia-se de imediato ao sangue que corre pelas veias e o leva a todas as partes do corpo incluindo o cérebro. O líquido no estômago conserva-se uns escassos segundos e a seguir o paciente é acometido de grandes convulsões e chegam-lhe os vómitos que pela boça lhe saiem largos esguichos do medicamento que tinha tomado. Alguem tem que ajudar esses doentes, segurando-os pelos ombros e batendo-lhe nas costas.

Antes do tratamento dos internados, para uma cura que pode durar um mês, estipulado para as quatro horas e meia da tarde, o grupo de uma meia centena de toxicodependentes, chega junto ao espaço onde será ministrado o medicamento herbal, e cada um com uma vassora na mão varrem as folhas caídas das árvores. Cheguei a uma jovem rapariga irlandesa, bonita, e falei com ela, de vassora na mão, uns minutos. Franca nas palavras, mas com marcas no rosto já envelhecido prematuramente.

Não lhe falei em drogas nem no tratamento a que estava submitida, mas perguntei-lhe se gostava de estar no mosteiro e respondei-me: yes,yes very much I like it!

Lembrei-me do sofrimento a que estariam sujeitos os seus pais bem longe e à espera que a filha regressasse ao seio completamente curada...

Mas, alguns, de facto saiem do mosteiro curados, mas uma percentagem de 20 a 30 por cento volta ao hábito e mais uma vez em procura da cura no mosteiro.

Noutro lado dou com dois homens entre a idade dos 22 a 25 anos e perguntei-lhe de onde vinham; de Inglaterra.

Um já quase de barriga e peito colados às costas e a cota da mão com duas cicratizes de queimaduras que deveriam ter sido feitas no aquecimento da cocaína antes de a injectarem ou ingerirem.
Havia por lá outros, europeus e australianos de vassora na mão que não me valeria a pena contactá-los porque a histórias seriam as mesmas.
Todos os toxicodependentes entrarem para um parque, com um telheiro de zinco e um palco ao fundo onde os joveñs doentes levam a cabo espectáculos de música, cujo os artistas são eles.

Uma biblioteca bem recheada de livros para os ajudar a passar o tempo melhor.

Um grupo colaca-se ao lado esquerdo com pequenos pratos de metal e um tambor conprido ao meio da ala.

Do outro lado estão em fila aqueles a quem um monge budista lhe vai dar um copinho com o líquido que irão ingerir.

Há ordem para que todos o bebam ao mesmo tempo. Daí a pouco a ala, quase em simultâneo, começa a vomitar, fortes esguichos para o balde que está a frente de cada um. Contorcem-se, vergam o corpo.

Alguns choram pelas convulsões a que estão sujeitos pelo efeito da droga. Os cantos do grupo continuam e o som do tambolirar tambor.

Depois dos vómitos, os que foram tratados bebem muita água. Familiares de alguns doentes, certamente pais e irmãos assistem, sentados, ao tratamento.

Por mais estranho que possa parecer o tratamento dos toxicodependentes é absolutamente gratuito e não só a acomodação, a roupa que irão usar durante a permanência no "Mosteiro Thmakrabok", assim como a alimentação.
José Martins