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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

OS TRÊS DA VIDA AIRADA NO ATAQUE

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Unidos contra Cavaco
Na cruzada contra o Presidente, Sócrates, Soares e Alegre estão unidos.

De: José António Saraiva
Sérgio Sousa Pinto é um jovem militante socialista de 37 anos, que foi presidente da JS, fez um livro a meias com Mário Soares, esteve no Parlamento Europeu (andando dez anos desaparecido) e agora regressou à Assembleia da República.
Numa insólita declaração no passado fim-de-semana, Sousa Pinto acusou o Presidente da República de «se intrometer na agenda do Partido Socialista» por ter dito que não se pronunciava sobre o casamento gay, estando antes preocupado com o desemprego, a falta de oportunidades dos jovens ou a baixa competitividade da economia portuguesa.
Para Sérgio Sousa Pinto, esta declaração de Cavaco representava – repita-se – uma inaceitável intromissão na agenda do PS.
É verdade que Sousa Pinto é um jovem.
Mas não tão jovem que não se lembre dos congressos organizados pelo então Presidente Mário Soares no tempo em que Cavaco Silva era primeiro-ministro.
Congressos com o objectivo explícito de discutir o futuro do país e apresentar uma agenda política para Portugal.
É impossível Sousa Pinto não se lembrar disto.
Ora isso não o impediu de ser um dos grandes admiradores e apoiantes do ex-Presidente da República.
O que lhe terá dado, então, para atacar agora Cavaco por fazer uma inócua declaração de circunstância?
Ainda por cima, Cavaco Silva estava cheio de _razão.
Pense-se o que se pensar do casamento gay, é obviamente inoportuno aprová-lo neste momento.
Primeiro, por estarmos em vésperas de discussão do Orçamento e devermos centrar aí a atenção, até porque o país atravessa uma situação económica e social muito difícil; segundo, porque o Governo minoritário está a dar os primeiros passos e deve procurar consensos parlamentares e não forçar rupturas; terceiro, por estarmos a atravessar um período de luta política muito acesa e este assunto dividir Belém e S. Bento; quarto, por ser Natal.
Não era este, portanto, o timing certo para avançar com o casamento gay.
Além do mais, não há condições para discutir o assunto com um mínimo de ponderação.
A ideia que passa é que o tema foi metido à socapa e aprovado à pressa.
A menos que o objectivo de Sócrates fosse mesmo esse: provocar aquilo que, em teoria, deveria querer evitar.
Isto é, descentrar a atenção do Orçamento, forçar rupturas parlamentares, agudizar a luta política, agravar a tensão com Belém.
E, bem vistas as coisas, todos estes objectivos interessam ao primeiro-ministro.
Numa altura em que o partido começa a dar sinais de algum nervosismo (em virtude dos sucessivos casos em que se tem visto envolvido), a luta parlamentar e a guerrilha com Belém poderia ajudar a manter as hostes unidas.
E, mais do que isso, contribuiria para promover a unidade entre as principais figuras da área socialista.
Veja-se quem saiu a atacar o Presidente da República: Sérgio Sousa Pinto, um afilhado de Mário Soares.
Será coincidência?
Talvez não.
Soares ainda tem atravessada a derrota de há quatro anos – e sonha com um desaire de Cavaco nas próximas presidenciais.
É isso, aliás, que o liga hoje a Sócrates: a luta comum contra Belém.
E Manuel Alegre também terá obviamente a lucrar com ela.
Quanto mais o Governo e o PS conseguirem desgastar Cavaco, maiores serão as suas possibilidades de chegar à Presidência.
Sócrates é um político pragmático e que não olha a meios para atingir os fins.
Nesta época em que surge pessoalmente desgastado, sabe que precisa de ‘causas’ que aproximem os notáveis socialistas e os ponham a falar a uma voz só.
Ora a luta contra o PR é uma dessas ‘causas’: ela tem potencial para unir os socratistas, os soaristas e os alegristas em torno de um mesmo objectivo.
Na cruzada contra o Presidente, Sócrates, Soares e Alegre estão unidos.
Resta saber se as bases do PS e o seu eleitorado aprovarão do mesmo modo os ataques ao chefe de Estado.
José António Saraiva

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