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terça-feira, 24 de março de 2009

ESCREVER COISAS SÉRIAS - CRISE EM DUBAI


Conheci Dubai na década de 80 do século passado. Quedei-me por um ano em Abu Dabhi, Sharja e Dubai. O progresso em Dubai seguia lento. Mais desenvolvido estava Abu Dhabi. Deveria ser eu o único português que por lá trabalhava.
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Umas poucas construções de alto porte junto ao porto marítimo e as lojas de venda de sobressalentes de automóveis, onde eu me deslocava, periódicamente, para compra de material, instalavam-se numas barracas cobertas de folhas de zinco.
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Os proprietários indianos e paquistaneses. Construiu-se um novo aeroporto com vários "free shoppings" onde se vendia ouro de lei ao quilo. Depois de um ano nos Emiratos, regressei a Dharhan na Arábia Saudita. Nunca mais lá voltei.
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Fui seguindo, pelos jornais, o progresso de Dubai, mas hoje ao navegar na internet verifico que em Dubai, também está a sofrer a crise, que de momento se faz sentir no mundo.
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Transcrevo uma peça de Robert F. Worth que bem dá conta da situação corrente em Dubai:
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" Sofia, uma francesa de 34 anos mudou-se para Dubai um ano atrás e aceitou um emprego em publicidade. Ela confiava tanto em que a economia de Dubai continuaria a crescer rapidamente que adquriu um apartamento por quase US$ 300 mil, com uma hipoteca de 15 anos.
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Agora como muitos trabalhadores estrangeiros que compõem cerca de 90% da população de Dubai, foi despedida e enfrenta a perspectiva de se ver forçada a deixar a cidade do Golfo Pérsico - ou ainda pior.
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"Estou assustada com o que me pode acontecer, porque comprei um imóvel aqui", diz Sofia, que pediu que seu sobrenome não fosse divulgado porque está procurando emprego. "Se não puder pagar as prestações, disseram-me que posso ser presa por dívida".
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Com a economia de Dubai em queda livre os jornais informam que existem mais 3 mil automóveis abandonados no estacionamento do aeroporto, deixados por estrangeiros endividados que fugiram do emirato (e podem de facto terminar na cadeia caso não paguem suas contas). Diz-se que dentro de alguns dos carros foram encontrados facturas de cartões de crédito com os limites estourados, e pedidos de desculpa colados nos pára-brisas.
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O governo diz que o número real de fugitivos é muito inferior. Mas a história contém pelo menos uma dose de verdade. As pessoas que perdem o emprego, em Dubai, também perdem seu visto de trabalho e precisam de sair do paiz dentro do prazo de um mês. Isso gera queda no consumo, deprime o mercado de habitação e reduz os preços dos imóveis, o que resulta em uma espiral de baixa que deixou certa grandeza a Dubai - até recentemente vista como superpotência económica do Médio Oriente - com a cara de fantasma.
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Ninguém sabe até que ponto vão os problemas, ainda que seja claro que dezenas de milhares de pessoas deixaram o país, os preços dos imóveis desceram de preço e dezenas de grandes projectos foram suspensos ou cancelados. Mas o governo vai resistindo a fornecer dados, pouco válidos, não fugindo aos inevitáveis boatos, o que prejudica fortemente a confiança dos investidores e abala a economia.
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Em lugar de avançar na direcção de uma maior transparência, os Emiratos Árabes Unidos parece estar a caminhar para o lado oposto. O governo receando que os media espalhem boatos em cima da presente situação e para que não deitem por água abaixo a reputação económica que Dubai haja gozado, criou uma lei que aplica pena a jornalistas que deia conta da frágil situação económica de US$272 mil dólares.
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No mes passado, jornais locais informaram que Dubai estava revogando 1500 visto ao dia, de acordo com fontes não identificadas dentro do governo. Perguntado sobre este número, a Humaid bin Dimas, porta-voz do Ministério do Trabalho, de Dubai, disse que não o confirmaria ou negaria. Há quem diga que o número real é muito mais elevado.
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"No momento, todos parecem prontos a acreditar no pior", diz Simon Willians, chefe economista HSBC em Dubai. "E os limites à divulgação de dados tornam difícil rebater os boatos"
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Alguns indicadores são claros. Os preços dos imóveis que subiram dramaticamente durante os seis anos de boom em Dubai, cairam 30% ou mais nos últimos dois ou três meses em certas áreas áreas da cidade.
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Na semana passada, a agência de classificação de crédito "Moody´s Investor´s Service" anunciou que poderia rebaixar sua classificação para seis das mais importantes empresas estatais de Dubai, mencionando uma deterioração nas perspectivas económicas.
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Há tantos carros de luxo usados à venda que êles têm sido negociados por preços 40% inferiores aos praticados há dois meses atrás, dizem comerciantes do ramo. As estradas de Dubai, em geral repletas de tráfego nesta época do ano agora estão quase vazias. Alguns analistas dizem que a crise deve ter consequências duradouras para os Emiratos Árabes Unidos, uma federação de sete emiratos na qual Dubai vem sendo o irmão "caçula" rebelde de Abu Dhabi, mais conservador e rico em petróleo.
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O governo de Dubai engoliu o orgulho e deixou claro que aceitaria um resgate, mas Abu Dhabi até agora só ofereceu assistência a bancos locais. "Porque Abu Dhabi está permitindo que a reputação internacional do visinho seja destruída quando poderia resgatar os bancos de Dubai e restaurar a confiança?". Pergunta de Christpher Davidson, que previu a actual crise em Dubai num livro que publicou no ano passado (2008).
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"Talvez o plano seja centralizar os emiratos" sob o controlo de Abu Dhabi, ele especulou, o que reduziria fortemente a independência de Dubai e poderia mudar seu estilo mais aberto. Para muitos estrangeiros, Dubai parecia um refúgio, inicialmente, relativamente isolado contra o pânico que começou a varrer o mundo no ano passado.
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O Golfo Pérsico está protegido por suas vastas riquezas petrolíferas, e pessoas perdendo seus empregos em Nova Iorque e Londres começaram por se candidatar a postos nos Emiratos. Mas Dubai, ao contrário dos vizinhos Abu Dabhi e Arábia Saudita, não tem petróleo, e construiu sua reputação com os imóveis, finanças e turismo.
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Agora, muitos expatriados consideram que tudo foi uma trapaçada. Rumores exagerados se espalham com facilidade. O "Pal Jumeirah", um complexo imobiliário construído em uma ilha artifical, estaria afundando-se, e dizem que só baratas saem das torneira dos hoteis lá construídos.
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As coisas vão melhorar? Dizem que sim, mãs não sei mais em que acreditar", diz Sofia, que ainda espera encontrar emprego antes que seu tempo se esgote. "As pessoas estão entrando em pânico rapidamente".
Transcrição: José Martins