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terça-feira, 6 de outubro de 2009

A GRANDE VIAGEM - BORDEJANDO FRONTEIRAS



No passado dia dois (02.10.09) quando o meu amigo Chaiyuth chegou a minha casa eram 9 horas da manhã para com mais seis amigo iniciarmos a aventura de bordejarmos as fronteiras do Cambodja, Laos e da Birmânia a partir da cidade de Banguecoque.
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O meu amigo Chaiyuth, na casa dos 50 anos, é daqueles fura-vidas que começou do nada, a reparar pneus de automóveis e hoje possui um pequeno império de três oficinas de reparação de automóveis: vendas de pneus; na capital tailandesa, uma adega de vinho em Sri Racha, onde produz vinho a partir de frutos de framboesa; indústria de piscicultura onde dos lagos artificiais retira toneladas de peixes todos os meses; agricultura com vários de hectares de terreno aplicados â cultura do arroz, melões, framboesa e flor roselha (dar a cor) para a produção de vinho.
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Emprega 82 pessoas nas suas empresas e factura, anualmente, cerca de 200 milhões de bates, tailandeses (cerca 4,3 milhões de euros). Um homem modesto, não esconde vaidades, mas gosta de me dizer: "poupei, muito, para chegar onde estou...!!!"
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Sou amigo deste empreender há uns 10 anos e ficamos até hoje. Foi a Portugal, a minha recomendação e recebido com toda a hospitalidade pelas Caves Dom Teodósio, em Campo Maior, onde aprendeu algo em relação à produção de vinho, embora a partir de frutos de framboesa o sistema é igual ao de uvas. Hoje, coloca no mercado da Tailândia cerca de 200 mil garrafas anuais.
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Não pára de plantar plantas de framboesa e abastece os camponeses junto às suas propriedades com plantas que cria em viveiros e melhora-lhes o seu viver com a compra, da produção, garantida.


Há um mês combinou esta aventura comigo e que apenas iríamos os dois. O plano vira-se a mudar e outros seus amigos como eu, quiseram juntar-se a nós. Gente empreendedora, modesta como o meu amigo Chaiyuth onde se viria a incluir uma senhora, empresária, de confecção de dietas alimentares, tailandesas que coloca no mercado local.
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Apenas para mim dei-lhe o nome de Daninha e vai ser assim, que durante o correr da descrição da aventura em várias partes, a tratarei. Engracei com a Daninha (não pensem por aí de amores...), pela mulher pequenina que a natureza a dotou, mas de uma alma grande para o negócio que para a frente vou explicar o porquê.
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Ora a viagem de bordejar fronteira teria o começo a partir das propriedades do meu amigo Chaiyuth na região de Sri Racha (uns 12o quilómetros a sul/nordeste de Banguecoque. Antes de partirmos deslocou-se a três complexos, deu ordens ao pessoal e ao construtor que lhe preparava um sistema de regar, por aspersão, para a estiagem, nos meses de Dezembro a Março, que não tarda a chegar.
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As suas propriedades, não me são desconhecidas e gostou de as mostrar a três dos seus amigos. Ordens para este, para o outro empregado e estava a ver que Chaiyuth nunca mais se preparava para a grande viagem.
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Está agora preparado e junto à uma hora da tarde a partida. A barriga de todos está vazia e quem vai para a estrada avia o estômago antes de partir. Água em garrafas, numa caixa térmica, atacada de pedras de gelo, já refrescavam numa caixa térmica para o que desse e viesse e se o carro empanasse



No nosso percurso não iríamos encontrar hotéis de luxo, nem de três estrelas que fossem mas restaurantes ao ar livre onde se come bem por pouco dinheiro. Todos nós somos de bom dente e melhor estômago. Quanto a mim portei-me, heroicamente, não dando parte de fraco nas comidas picantes, daqueles de vir as lágrimas aos olhos.
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Gostarei de aqui referir que o tailandês é a pessoa mais hospitaleira que pode haver no mundo! Gosta que os seus amigos "farangs" (estrangeiros na Tailândia) compartilhem os seus apetites grastronómicos e perguntam-lhe sempre: "do you like thai food?" (gosta de comida tailandesa?). Claro que se deve dizer que sim, porque a gastronomia tailandesa é excelente e até se lhe perdoa o picante da malagueta, as lágrimas dos olhos porque, com o tempo passa é uma questão de hábito.
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Ver um tailandês feliz é dizer-lhe que adora a sua culinária! Não esquecerei de aqui referir, que uma mesa tailandesa é composta de muitos "pratinhos" de várias especialidades, nunca falta o arroz que cada um sentado à mesa vai tirando deste e daquele pequenas porções que mistura com o arroz. Come muitos vegetais, crus, onde se inclui o repolho. È vagaroso nas refeições e uma parte de sua cultura.



Depois do almoço estamos na estrada para a grande e cansativa maratona. Conheço muito da Tailândia, mas não, como é óbivo tudo. A "Roadstone", uma carrinha fechada, de marca Wolksvagem, resistente e atingindo em boas estradas os 160 quilómetros hora.
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O meu amigo Chaiyuth é um condutor de excelência, chegando-lhe a dizer: "tu não foste talhado para empresário mas para condutor de carros de corrida de "fórmula 1!" . Cuidadoso, a conduzir, bom calculista nas ultrapassagens e perdoei-lhe já os susto que me provocou...
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A primeira paragem é no mercado de Aranyaprathet, situada numa cidade fronteiriça que divide a Tailândia e Camboja. Já não visitava a cidade há 22 anos.
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A última vez que ali passei foi com o jornalista Nuno Rocha de quando fomos junto à fronteira do Camboja visitar o campo de refugiados vietnamitas e cambojanos onde haviam 170 mil pessoas vítimas de uma guerra, civil, terrível no Camboja.
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Na altura Aranyaprathet era uma cidade pequena e militar onde se aquartelavam as tropas tailandesas para vigiarem as infiltrações do Camboja no seu território. Era entretanto já um pequeno centro comercial onde as populações cambojanas trocavam o seu oro, antiguidades (o dinheiro do Cambodja não tinha valor), pela permuta de sabão, fósforos e outros artigos de primeira necessidade, onde se incluia comida.



Depois do Acordo de Paris de Outubro de 1991 que ditava a retirada das tropas vietnamitas do Camboja, a paz, mesmo precária, chegou e forma-se em Aranyaprathet um mercado e a corrida de gente para esta cidade de milhares de pessoas de Banguecoque, em procura de "pechinchas" cambojanos que ali aportavam todos os dias, a venderem os seus bens e até, algumas obras de arte retiradas do santuário de Angkor.

Eram as necessidades daquela gente, que as obrigava, depois de uma guerra que ceifou a vida a milhões de pessoas e deixou outras em condições miseráveis. Mas depois da venda de pequenos bens, forma-se ali um mercado (não quero dizer aberto e livre, sem o controlo aduaneiro) de contrabando e uma aba entre a Tailândia, Vietname e a China.

Naquele mercado encontram-se à venda toneladas de carteiras (de marcas famosas), óculos, relogearia e um mundo de outros artigos falsificados e até de fabrico local. Embora as autoridades tailandesas, segundo tive conhecimento, desejarem estagnar a entrada destes produtos do Vietname e da China não vai ser tarefa fácil dado que a fronteira é longa e difícil de controlar no seu todo.

Encontram-se umas dezenas largas de jovens do dois sexos a venderem, carteiras de bolso, óculos de contrafacção, chapéus de sol e da cabeça a um preço que se pode considerar ridículo. Tudo ali se encontra desde uma peça de ferramente, a perfumes, a dentes de elefantes, frutas seca e fresca.

Dezenas de barracas em linha que formam ruas. Pela cor da pele se advinha a influência da etnia khmer. Pode o turista comprar um objecto de marca, contrafeito, num mercado de rua na cidade Banguecoque que certamente não sabe que esse artigo não foi produzido em Banguecoque mas chegado de uma localidade fronteiriça e chegado, camuflado e fora da vista das autoridades tailandesas.

Não está fora de dúvidas que em alguns casos (em que país ele não existe?) há o sistema corruptivo. Porém daquele negócio depende a vivência de milhares de pessoas e o desenvolvimento de Aranyaprathet.



O rigor do meu amigo Chaiyuth permitiu-lhe dar ao resto da "malta" 30 minutos para visitar o mercado e fazer umas compras. Alguns comprarem umas "bujigangas" e eu andei por alí a fazer uns "bonecos" da "Nikon D70" em punho e a primir o botão, sem a pessoas dar por isso para que as imagens ter mais realidade.
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Agora estamos de partida e já fora dos limites de Aranyaprateth e a rodarmos pela estrada militar, tailandesa, praticamente desactivada, mas com "check points" ao longo do percuso controlados por militares tailandeses para controlar a circulação de pessoas e veículos.
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No território tailandês nota-se que o desevolvimento não pára, com grandes plantações de cana de açúcar e arroz. Enormes matas de eucaliptos para a indústria papeleira, frondosas matas de árvores de borracha que se estende e sobem o declive da montanha. Vi pela primeira vez a caída da seiva de borracha para os vasos presos ao tronco da árvore.
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Da parte cambojana, nada se vê e parece que o desenvolvimento parou. Umas barracas cobertas colmo para lá da marcação da fronteira e na "terra de ninguém", onde vivia gente. Pessoas que nem as autoridades do Cambodja ou da Tailândia, segundo o Direito Internacional, os pode dali desalojar. São os apátridas.
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Mesmo aquela pobre gente ali viver dentro de extrema pobreza, invejei-os, porque me apetecia ser, como eles, apátrida, sem ter que estar aguentar com o descalabro, político/administrativo, que vai pelo meu Portugal onde por má sorte, dos homens que o têm governando, eu nasci.
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Gostava, gostava sim de ser apátrido, construir o meu próprio mundo, a minha pátria e a bandeira onde ao centro fosse inscrito um H grande que simbolizava a honestidade!


Rodamos já distante de Aranyaprathet. A estrada deixou de ter controlos militares e barreiras que permitem os carros passar em ziguezague. O piso apresenta-se mau. Guia-nos a tecnologia moderna um GPS que nos indica o caminho a seguir.

De quando em enquando o GPS vira a seta ao contrário do caminho que rodamos. Indica-nos que vamos a seguir mal que deveremos voltar para trás. Passamos junto a uma manada de búfalos e pastor que olha por eles. É gado da Tailândia. O meu amigo Chaiyuth pergunta ao pastor ( saltava à vista ser da etnia khmer) o caminho a seguir.

Certamente para se livrar de nós indica-lhe o caminho em frente e terminou o nosso caminho junto a uma barragem, pequena, em território tailandês, que me saltou à vista o Governo ter mandado construir para as populações das aldeias das redondezas pescarem peixe para fazer face à sua alimentação.

A "Roadstone" estacionada no fim da estrada e subimos ao topo daquela reserva de água que a recebe das montanhas e armazena e tiramos o primeiro boneco de "família".

Local bonito,encravado em duas montanhas, o céu límpido e o sol a esconder-se no horizonte. Meia dúzia de "turistas", eramos nós, repletos de felicidade sem contarem aquilo que lhes estava reservado pela frente...!

Partimos, sem saber que caminho a tomar. A seta do GPS indicava que deveríamos voltar para trás. Não havia caminho pela frente e se havia era intransitável. Mas o meu amigo Chaiyuth, sempre teimoso e não querer voltar a Aranyaprateth (mais de centena e meia de quilómetros), pediu informações a dois pescadores; não entendi o que lhe teriam dito e partimos por uma picada, na "terra de ninguém" e acabamos por não ter saída e voltarmos para trás em procura de outro atalho.

Foi encontrada uma estrada que teve trânsito, em tempo de guerra, no Camboja, pelos marcos na berma da estrada e agora um caminho esburacado que viria a provocar as primeiras lesões na suspensão da "Roadstone".




O sol já escondido e a frondosa floresta dava-nos a imagem da noite. Teríamos que subir uma encosta, mas bastante acentuada, da montanha. Tive medo (era mesmo de ter...) de ficarmos empanados na picada e ao sabor das picadelas da feroz "mosquitada" que por ali abundam e sedenta de sangue, humano que ataca durante a noite.
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A "Roadstone", com algumas recusas e abrandamento no rodar, venceu heroicamente a montanha. Respirei fundo! Era mesmo para isso, para quem como eu, por anos, conduziu nas matas de África e nos desertos árabes não me são desconhecidas as partidas a que se está sujeito em picadas fora da civilização.
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Mas já no alto, surge-nos agora um "check point" que fecha por completo a picada em certos percurso os bambús tomaram conta dela. Ao lado há uma palhota de colmo onde vive um militar a marcar a presença que ali é território tailandês. Ao som da buzina da "Roadstone" sai o homem e diz-nos não podemos passar por alí, mas por uma picada, ao lado e entramos na principal.

O obstáculo está vencido. A picada, que foi estrada, quase voltava irreconhecível. Ramos de árvore, apodrecidos, que cairam das árvores encontravam-se a cada rodar. Agora, outra vez para mim: "vamos ficar aqui... nunca mais saímos daqui..."
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Aquela alegria, de antes, calou o bico. Nem um deles tossia ou mugia. Um sepulcral silêncio. Estamos fora do inferno do capim e das canas de bambú e a "Roadstone" está na picada de piso razoável.
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Foi sol de pouca dura. Depois de uma pequena curva temos a uns 200 metros a picada fechada com tábuas rudes e pregadas com pregos de umas duas polegadas de cumprimento.
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Chegados aquela barreira, rude, não podemos seguir em frente. Vou encontrar uma cena patética e que me dá conta de intenção de violência. No cimo da barreira está pendurada uma luva de "boxe" tailandês. Pensei mas porque raio esta coisa está aqui?
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Será de aviso aos que ali passarem sofrerem as consequências? Do lado direito da picada (que foi estrada antes) há umas palhotas e o meu amigo Chaiyuth dirigiu-se para lá, gritou pelo o homem e deu uma assobiadelas estridentes. Moita calada e viva alma apareceu. Mas surge um cãozito abanar o rabo como que darnos as boas vinda.


O meu amigo Chaiyuth homem desenrascado e para todas as ocasiões, não houve problemas e alto diz: tenho um martelo na "Roadstone"!

Foi buscá-lo e começa a martelar nas tábuas para as desprender dos malditos pregos. Salta o martelo do cabo e fica com este na mão.

O cena não era mesmo para rir. Mas o riso foi-se de nós todos! Não vai a martelo vai à unha e foi mesmo...

Puxa para aqui e para ali e lá conseguimos uma nesga para a "Roadstone" transpor a barreira. As vezes que murmurei para dentro de mim: "maldita hora que aceitei o convite para a viagem..." Lembrei-me da minha casa, do descanso livre da minha mesa de "escrevinhador" e da liberdade que ali gozo.


A noite caia e agora fora do inferno da picada estamos a rodar sob forte chuvada e estrada esburacada. Observava para lá da berma da estrada plantações de tapioca e de milho.

Não via luzes nem carros a cruzar com a "Roastone". Um desertificado de gente e só vamos encontrar civilização depois de largos quilómetros percorridos.

Telefonei, pelo móvel, a minha mulher dos problemas encontrados. Digo-lhe amanhã vou regressar a Banguecoque porque isto é muito violento. Respondeu-me: "volta para casa amanhã!"

Junto às 10 da noite ainda rodavamos e recebo um telefonema de minha mulher a perguntar-me se estava bem. Respondi-lhe: "ainda estamos a rodar", isto nunca mais termina e já, na altura levamos, desde Banguecoque, 12 horas a viajarmos.

Eu e outros turistas estavamos completamente estoirados da viagem e, valeu-nos ao menos termos água fresca na caixa térmica. Não houve comida para ninguém porque até não havia nem encontramos local para darmos ao dente.


Junto às 11 da noite sem saber onde me encontrava estavamos a sair num motel em Si Sá Ket, nas terras do Isarn, Nordeste da Tailândia, a confinar com o território Cambojano. Tinha os ossos num molho e diz-me o meu amigo Chaiyuth. Vamos dormir aqui.

Fiquei num bengalô de aircondicionado e logo que entrei atirei-me para a cama vestido.

Acordei às 6 da manhã de quando um turista meu colega de viagem me bateu à porta a dizer-me: "Josi Martin (s) prepara-te que vamos sair dentro de momentos.

Bêbado de sono e de olhos remelados abri a porta, olho para fora e vejo apenas campos de arroz alagados e sem casas.

Era ali, apenas, um motel instalado, para dar dormidas a viajantes.

Para mim: "m******* para isto... não posso deixar o meu amigo Chaiyuth e tenho que seguir viagem"!

Sei que iria fazer figura de malcriado... Mas se a viagem continuasse, como a do dia anterior, seria impossível prosseguir viagem.

A idade (esta maldita) não perdoa.

José Martins

Fim da 1ª parte