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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

AS TECLAS DE PRATA DE BERTA BRÁS

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“É comprar, Senhores...”
«Os jornais deram há dias reportagem primorosa sobre a integração lusitana no bloco peninsular.
Andamos baixos de escudos de forças de homens de crenças queremos ajuda alheia seja qual for o seu preço dai-nos vossa mão Senhores.
Já não temos que comer nem solas p’ra pôr de molho o gageiro sobe ao mastro e não topa terra firme nas areias portuguesas Sebastião não virá na manhã de nevoeiro as barras de ouro herdadas dos tempos da ditadura estão erm vias de extinção nada temos p’ra deixar aos filhos do nosso amor dai-nos vossa mão Senhores não nos deixeis liquidar.
Os Espanhóis são mais ricos bem nos podem ajudar pelo prato de lentilhas como Jacob deu ao irmão damos-lhes a governança da nossa nau naufragada dai-nos lentilhas Senhores em troca da nossa barca.
Não era a primeira vez que Espanhóis nos governavam somos ineptos Senhores isso está mais que provado arriscai Senhores em nós valemos pouco dinheiro arriscai Senhores em nós o nosso preço é barato.
Temos desejo de ordem e de governos de força oito séculos de História é lirismo p’ra esquecer arriscai Senhores em nós bem nos podeis apoiar.
A vida é curta gozemo-la tendes as vossas pesetas ficar-vos-emos mui gratos se nos quiserdes comprar valemos pouco dinheiro o nosso escudo é barato dai-nos vossa mão senhores queremos continuar seja qual for vosso preço.
Ninguém nos quer?
Oh! horror!
Não nos quereis nem de graça?
Seremos nós pobres párias de toda a parte excluídos?
Arriscai Senhores em nós prometemos ser fiéis dai-nos depressa as lentilhas não nos deixeis afundar.
Dai-nos vossa mão Senhores...»
É então a hora agora?
Berta Brás


Nau Catrineta
Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide agora, senhores,
Uma história de pasmar.

Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar.

Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija,
Que a não puderam tragar.

Deitaram sortes à ventura
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão general.

- "Sobe, sobe, marujinho,
Àquele mastro real,
Vê se vês terras de Espanha,
As praias de Portugal!"

- "Não vejo terras de Espanha,
Nem praias de Portugal;
Vejo sete espadas nuas
Que estão para te matar."

- "Acima, acima, gageiro,
Acima ao tope real!
Olha se enxergas Espanha,
Areias de Portugal!"

- "Alvíssaras, capitão,
Meu capitão general!
Já vejo terras de Espanha,
Areias de Portugal!"
Mais enxergo três meninas,
Debaixo de um laranjal:
Uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas
Está no meio a chorar."

- "Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei-se casar."

- "A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar."
- "Dar-te-ei tanto dinheiro
Que o não possas contar."

- "Não quero o vosso dinheiro
Pois vos custou a ganhar."
- "Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual."

- "Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar."
- "Dar-te-ei a Catrineta,
Para nela navegar."

- "Não quero a Nau Catrineta,
Que a não sei governar."
- "Que queres tu, meu gageiro,
Que alvíssaras te hei-de dar?"

- "Capitão, quero a tua alma,
Para comigo a levar!"
- "Renego de ti, demónio,
Que me estavas a tentar!
A minha alma é só de Deus;
O corpo dou eu ao mar."

Tomou-o um anjo nos braços,
Não no deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a Nau Catrineta
Estava em terra a varar.
-


Almeida Garrett, Romanceiro
Porto de Abrigo

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