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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

CARLOS ALBINO: PONTO CRÍTICO 40: A VISITA DE CAVACO

PONTO CRÍTICO 40 : A visita de Cavaco



Será mais um exercício efémero
se a lassidão de Lisboa
voltar no dia seguinte
sobretudo na diplomacia pública
    É EXCESSIVO afirmar-se que a ida de Cavaco aos EUA marca uma nova fase nas relações transatlânticas de Portugal. Essas relações nunca estiveram em crise e foram sempre pautadas pelo relativo interesse do EUA cuja administração conhece muito bem a situação portuguesa pelos meios que aciona – o país não lhe longínquo sabendo também Washington as servidões que o quadro da União Europeia deixa sugerido nos dossiers por ventura mais melindrosos no plano político. Também no contexto da crise económica e financeira e quanto a esse já chavão de que “Portugal é diferente da Grécia”, a visita de Cavaco acrescentará muito pouco ao que os EUA sabem porque a diplomacia norte-americana pode ser tudo menos distraída – sabe. Como também sabe pela doutrina dos factos o que vale a credibilidade de Portugal e as descompensações de percurso. E sendo expectável que a natureza das relações político-diplomáticas não vai dar saltos com esta visita, caso se invoque alguma lassidão nas relações económicas, designadamente no plano das trocas comerciais, em virtude da continentalização ditada pela UE, essa lassidão não pode ser assacada aos EUA mas aos agentes portugueses que se distraíram no trabalho de casa por certos fiados de que a indefinida união continental teria um denominador comum – não tem como se verifica quando a fração é a doer. Naturalmente que a visita, como todas as visitas minimamente programadas, vale a pena, pode e deve ser bem aproveitada, mas o êxito não depende do discurso e muito menos do simbolismo protocolar. Depende do trabalho de casa. Todos os governos que Portugal tem conhecido não se têm poupado nas loas ao transatlantismo quando as circuntâncias aconselham a que invoque esse nome algumas vezes em vão, mas no dia seguinte a continentalização entra pela casa como destino silenciosamente irreversível. Numa Europa sem crise essa toada não cheirava bem a falso mas via-se que também não era de grande convicção ou que provinha de uma convicção comprometida, já numa Europa em crise a mesma toada pode cheirar a verdadeiro mas é Portugal, agentes e decisores, que têm que fazer o que lhes compete para a cura da ferida económica e nesse importantíssimo domínio que se chama diplomacia pública. Neste campo, a visita de Cavaco pode detonar algum fogo de artifício mas será mais um fogo efémero se a lassidão de Lisboa voltar no dia seguinte.
    Carlos Albino

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