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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

REPORTAGEM: “NAS TERRAS BAIXAS DE AYUTHYA (TAILÂNDIA)"

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Há uns três anos, para cá, tenho passado de raspagem por Ayuthaya.Seguia afastado da segunda capital do Reino do Sião, fundada em 1350 e caida em 1767 que viria a dar lugar à cidade, moderna, de Banguecoque a capital do Reino da da Tailândia. Resolvi no princípio de Fevereiro permanecer uns dias entre Ayuthaya e Lopburi (centro/nordeste), uns oito.

Esquerda: O meu companheiro de viagens por esta Tailândia. Na idade de 16 anos porta-se, como eu velho que sou, porreirinho. A residencial "Wichai Place", onde aterrei por uns dias a 500 bates pelas 24 horas do ponteiro do relógio.
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Teria que quebrar, mais tarde ou cedo esta minha "birra" e lembrei-me que os homens (embaixadores), quedam-se pela Tailândia, partem depois de uma comissão de 3 ou 4 anos, vão pregar a outra freguesia, a rotina diplomática continua e as raízes históricas do que existe de Portugal na Tailândia, durante 5 séculos, que vá colher urtigas e o colega a substitui-lo que se coce com aquilo que deveria fazer e se esqueceu de o levar a cabo
O Campo Português, a paróquia de S. Domingos, no Ban Portuguete (Aldeia dos Portugueses) em Ayuthaya, continua muito mal tratado. Eu sempre pensei que este ano (2011) o da Celebração dos 5 séculos da chegada dos portugueses e relacionamento com Antigo Reino do Sião, estivesse arranjadinho, muitas flores selvagens a circumdaram-no, relva verdinha (água para a regar não é problema na margem está o grande Rio Chao Prya). Aquilo está uma vergonha e mais vergonha, ainda, para aquele que acreditou o embaixador Faria e Maya para representar Portugal na Tailândia. Falta de dinheiro Faria e Maya não teve para alindar o local. Agora não sei e bom que soubessem (quem de direito) por onde seguiu Faria e Maya, com um cartão de crédito "Visa Platina", a gastar à fartazana, mais a sua diligente esposa Maria da Piedade, dinheiros públicos e recebidos do aluguer, de uma parcela de terreno, a um hotel que rende (mais ou menos 120 mil euros anualmente). Será que os velhos vícios da "bolsa azul" dos consulados ainda perduram?
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Ora em Ayuthaya, a pouco mais de uma hora de viagem de Banguecoque e eu por aqui sigo há mais de 30 anos e de quando na cidade, ainda havia algo, parecido, do tempo em que os portugueses por cá viveram (1511/1767) no “Ban Portuguete” (Aldeia dos Portugueses). O desenvolvimento fez de uma velha capital cheia de história, de ruínas, templos budista desaparecerem, como assim as casas de madeira de teca, levantadas em estacas junto à margem do rio Chao Prya e canais, para evitar a submersão durante as cheias, aos poucos se foram perdendo e a Ayuthaya ficou sem encanto.
Foto do lado esquerdo: Um bloco de tijoleira onde ao centro esteve designado o nome do "Ban Portuguete", junto à margem do rio Chao Prya. Apagou-se e turista que por ali passe e português, seja, verificar que alí é Portugal na Tailândia. Claríssimo que até poderia o barco encostar ao embarcadouro, se não estivesse destruído, por desleixo de manutenção, ir visitar o museu a 100 metros da margem do rio e dentro ver os ossos dos portugueses que ali viveram e ficaram para sempre. Imagem da direita o embarcadouro destruído. Já dei o "lamiré" há uns meses e "moita calada" pela parte do embaixador Faria e Maya... Mas para que deveria ele fazer? Quase no fim da sua comissão de 4 anos, tempo que passou na maior em Banguecoque, com dinheiro "farfalhudo", boa cama para dormir, não valeria a pena estar-se a preocupar em preservar as raízes de Portugal na Tailândia. Mas já que ele, não fez nada (parece-me que as Necessidades mandaram um diplomata doente e tolhido de reumatismo e picado da mosca do sono) pelo menos a sua esposa a embaixatriz Maria da Piedade, uma senhora tão ladina que percebia de tudo, ao ponto de meter o "bedelho" no serviço de chancelaria, depois de tantas e mais actividades que levou a cabo em Banguecoque (gostava muito de posar para os jornais e revistas de Banguecoque), não tenha ido ao Campo de S.Domingos a Ayuthaya, dado que a senhora tinha um "pó-pó" Mercedes, por sua conta e fazer ali alguma coisa. Porém a "espevitada" senhora em vez de ir a Ayuthaya, preferia ir ao super shopping center "Parangon" fazer as suas comprinhas de luxo e, penso, com um cartão Visa platina. Mas que bonito seria no próximo dia 22 de Fevereiro, o novo embaixador Jorge Ryder, ao proferir o discurso, da praxe e diplomático como mandam as regras, ao dar a conhecer à plateia um livro que será lançado na Siam Society, relativo ao relacionamento entre Portugal e a Tailância, com comes e bebes, para visitar o Campo de S.Domingos, no Ban Portuguet. Não pode falar nisso... As vergonhas não se divulgam.... encobrem-se!
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Foram-se, assim, parte dos grandes campos de arroz e aonde antes era um mar de verdura para dar lugar a fábricas, instaladas, pelos japoneses e a gente, jovem, que amanhava as terras virou operária de fábricas. A cidade cresceu, cresceu, sem estagnar, a partir dos anos 90, levantaram-se novos hotéis para todas as bolsas e preços.
As ameias portuguesas, pintadas alvo de neve, vivem e tratadas em Ayuthaya. Este é o Forte de Pom Phet. Conheço este baluarte há mais de 30 anos. Antes o forte estava envolvido em matagal e mal se vislumbrada. Umas barracas, juntas, vendiam peças de barro e porcelana da China que era pescadas no leito do rio por homens em mergulho directo. Desde que os tais, vindo de Sukhotai, se instalaram em Ayuthaya em 1350, o casaria foi construído junto à margem de três rios: Chao Prya, Pasak e Lopburi e daí muita coisa antiga caiu das habitações para o rio. Hoje essas peças que são relíquias perderam-se. Ainda tenho umas poucas, em minha casa, que comprei por uma bagatela. Nessa altura o turismo estrangeiro ainda não tinha descoberto Ayuthaya. No Forte Pom Phet permaneceram artilheiros portugueses na arte de manobrar bocas de fogo grosso. O Forte de Pom Phet localiza-se na embocadura do Rio Pasak (vindo das terras do Nordeste da Tailandia) e na margem do Chao Prya e um ponto estratégico de defesa e controlo das navegações para o norte e nordeste da Tailândia.
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Em 1984 e numa viagem a Ayuthaya, acompanhado do Arquitecto Kol de Carvalho, bolseiro da Fundação Gulbenkian e a supervisionar as escavações do Campo Português de São Domingos (uma das três paróquias do Ban Portuguete) pernoitamos numa pensão, cujo quarto de ventoinha de tecto, ao levantarmo-nos estávamos picados de mosquitos.Isso foi coisa do passado e hoje pela módica quantia de 500 bates (cerca de 12 euros), para aqueles com uma reforma de “merda”, a que eu recebo do Estado Português, fica-se confortavelmente bem instalado em Ayuthaya. Aliás em toda as cidades da província da Tailândia. Para comer depende da mesa do restaurante onde se vai sentar, mas por uns 3 ou 4 euros levanto-me da mesa, depois de uma refeição, com o estômago adubado.
A entrada para o Campo Japonês, do lado oposto do Ban Portuguete. Este pedaço de terreno está carregado de história.Antes e em vários artigos já teclados por mim, me referi. De quando a queda de Ayuthaya, pelo exército, pilhador e destruidor do Pegú, os japoneses ali residentes tiveram a mesma sorte que a comunidade luso-tailandesa deslocarem-se para Banguecoque. O local ficou abandonado, igualmente como o Ban Portuguete, uns 230 anos. Porém passados dois anos (1986) de se iniciarem as escavações do Campo de S.Domingos, o Japão, juntamente com o "Fine Arts Department" da Tailândia, meteram mãos à obra e além de levarem a efeito o alindamento do local, conhecido por Yammada, construiram um Centro Cultural Japonês na cidade histórica de Ayuthaya. Os japoneses fixaram-se ali em 1543, vindos de Tanagahsima e são os católicos, perseguidos, convertidos pelo Francsico Xavier. Localiza-se do lado oposto do Ban Portuguete e com isto o relacionamento, de perto, com os católicos portugueses. O Campo Japonês está bem tratado, com pessoal, de limpeza, diariamente. Dentro possui um museu, moderno, onde retrata a vida dos japoneses e até oferecem, uma prova, de doce de ovos portuguese "Foi Thong" cuja receita foi deixada na Tailândia pela luso-descendente, Maria de Pina Guiomar. A entrada, com parque automóvel, custa a módica quantia de 50 baths (pouco mais de um euro),
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Fruta há abundantemente, deliciosa, em bancas de venda de rua e para quem goste é uma opção e come-la no quarto do hotel.Saí de minha, casa em Banguecoque, no dia um de Fevereiro pelas 10 da manhã, rumo a Ayuthaya e depois de todas as recomendações de minha mulher, chinesa, que de tantas me transmite, acabo por esquecer a maior parte delas. Sou um “tipo” afortunado, moro a 17 quilómetros da baixa de Banguecoque e dali com estradas magníficas, desloco-me para todos os pontos da Tailândia sem me engolfar no tráfico citadino.

Dentro do museu do Campo Japonês existem, expostos, os produtos que os japoneses negociavam na Tailândia, Na imagem do lado esquerdo poderemos observar, potes de barros que serviam para embalar marmelada de frutos de que o Reino Sião era fértil (assim o afirma o nosso Fernão Mendes Pinto na sua obra a Peregrinação). O sistema de conservação consistia a marmelada ou mesmo frutos, junto ao topo da vazilha, levar uma cobertura de cera de abelhas e coberto depois com folhas secas, amarradas com fios de raizes. Na imagem do lado direito, expostas pontas de marfim (abundante na Tailândia) e pedaços de toros de madeiras precisosa, ornamentais ou medicinais.
Imagem do lado esquerdo: O campo português de S.Domingos, no Ban Portuguete, do lado oposto do Campo Japonês. Como se pode analisar na foto está muito mal tratado e bem denota o deleixo e o pouco interesse para o conservar. Faz lembrar-me o Campo de S.Domingos a degradação do nosso país Portugal, onde os dirigentes se envolvem em narcisismos de vitórias que são, absolutamente, sacos de mentiras. O exemplo vem de cima... E quando os de cima não produzem nada que valha os de baixo e com um "poderzito" seguem-nos. É o que temos nos pontos chaves do Poder e nada nos vale, nós os da mó de baixo, levantarmos nossas vozes, porque somo pregadores de deserto.A imagem do lado direito, os japoneses não se esqueceram de expor à entrada do museu uma nau Portuguesa, que a mim me diz ser a "Nau do Trato" (ou a Nau da Prata) que do Japão trouxe o metal precisos para Macau.
A magnitude do grande Rio Chao Prya em Ayuthaya. Junto à curva do rio e do lado direito, situa-se o "Ban Portuguete". Imagem do lado direito um cenário ribeirinho da vida do quotidiano dos tais em Ayuthaya.
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Quando cheguei a Ayuthaya por volta do meio-dia de ontem desejei, antes de procurar hotel, dar uma volta pela cidade e ver onde iria cair por uns dias. Acabei por optar pela residencial “Wichai Place 77” simpática, pelo preço do quarto de 500 bates (12 euros), com televisão, casa de banho e internet, alta velocidade, grátis.


A imagem do lado esquerdo exibe a direcção para nos levar ao Campo da Holanda. Na imagem do lado direito e muitos portugueses não conhecem, está designado uma travessa com o nome Rua. Esta palavra, bem portuguesa, ficou na Tailândia. Vamos encontrá-la em várias localidades da Tailândia com designação "Tha Rua" que é a indicação de uma pequena localidade.
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O dia está feito e há que estender-me ao comprido na cama com o fresco do ar-condiciado e bater uma boa “sorna”, toda a tarde que até deu para sonhar. Mal escureceu uma nova vida começa na cidade e, estou precisamente, na Soi Cowboy de Ayuthaya (Travessa) cujo nome é a cópia de semelhante à de Banguecoque, onde bebem litros, sem conta, de cerveja em companhia de raparigas que trabalham nesses bares.
Campo Holandês em Ayuthaya. Os holandeses também estiveram em Ayuthaya e estabelecidos numa pequena parcela, junto à margem esquerda do Rio Chao Prya (também conhecido por Menan, ou Mãe das Águas). Os holandeses chegaram a Ayuthaya em 1604 e de quando os portugueses já ali, fixados, há cerca de 93 anos. Altura em que os holandeses e ingleses faziam a vida cara aos nossos navegantes que lhe pilhavam a carga das naus no mar alto e ao ponto de assassinarem toda a tripulação e passageiros. Os holandeses dominavam a Batávia (Indonésia) e os ingleses a India) e foram, os dois, os dominadores e os maiores piratas dos mares do Sul da China e do Índico, que as nossas naus para fugirem ao saques desta malandragem, teria que navegar junto às costas de Macau para Goa. Um dos objectivos dos holandeses se fixarem em Ayuthaya com uma Feitoria, a montante de uns 500 metros do Campo Japonês era para negociarem com os japoneses a compra de prata, que lhes vinha do Japão. As naus dos holandeses não navegavam a Ayuthaya, porque o calado, não lhes permitia, mas alugavam aos chineses juncos para lhes transportar a carga para Ayuthaya e vice-verso entre a Barra do Golfo do Sião (hoje Golfo da Tailândia). Os juncos chineses, que viriam a escassear a navegação no rio Chao Prya de quando surgiram os barcos movidos a vapor, em Banguecoque. Na imagem do lado direito, de momento, a ser construído um edifício, no estilo da arquitectura holandesa, junto à margem do Chao Prya que aventamos que ali vai funcionar um museu. Não perguntamos a ninguém ali a trabalhar, mas advinhamos que dentro em breve os holandeses vão dar ar de sua graça em Ayuthaya.
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Jovens sentam-se em frente da porta, do bar e convidam os homens que passam por ali para entrarem no bar, beber umas cervejas. Mesmo em frente à minha residencial e na idade de já ter juízo, não alinho nessas "borgas" nocturnas, mas gosto de observar, da varanda do meu quarto, a folia que por ali seguia. Acordei ao som do estrelejar de “panchões” pelas 5 horas da manhã.

Três imagens. A primeira mostra a frontaria do edifício junto à margem do Chao Prya. A do centro, uma lápide em bronze que marca os quatro centos anos da chegada dos holandeses a Ayuthaya. Em 2004 a Rainha Beatriz da Holanda, visitou a Thailândia e no local, foi então, aposta uma placa comemorativa. Do lado direito o pedestal, construido em tijoleira e nele apostas duas placas a relembrar os 400 anos dos holandeses em Ayuthaya.
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Mas que raio de “barulho” a esta hora, que mais me parecia rajadas de metralhadora ligeira! Lembrei-me o início do Ano Novo Chinês que este ano cabe a honra ao senhor Coelho (não é Zé Coelho da Madeira), embora ainda não se esteja no dia, os chineses antecipam-se a festejá-lo com os “panchões” (pequenas bombas entrelaçadas e decoradas) que até dá, o barulho do estouro, para irritar os tímpanos. Hoje dia 2 de Fevereiro, levantei-me cedinho, para aproveitar o sol brando, da manhã, para a fotografia e dirige-me para o Ban Portuguete, tendo, por tradição a obrigatoriedade de ser a primeira coisa que visito em Ayuthaya.
Um estaleiro de construção e reparação de navios tradicionalmente, siameses, que navegam no Chao Prya ao que há anos escrevei algo sobre ele: "Chao Prya, o meu rio e da minha poesia"
José Martins . Ayuthaya, 3 de Fevereiro de 2011.