Sem me querer intrometer ou criticar os objectos de marfim e da colecção particular
de Álvaro Sequeira Pinto, expostos no Museu Nacional de Banguecoque, http://aquitailandia.blogspot.com/2011/07/tailandia-eventocultural-integrado-nas.html ,
desejarei apenas informar que a arte de trabalhar o marfim já se encontrava estabelecida no Ceilão, no século XVI e de crer séculos antes de os portugueses ali chegarem.
O cofre da Embaixada enviado a Goa )1543-1549)
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Este cofre diz respeito à embaixada do mesmo Sri Radaraksa a Goa (1543-44,1549 e 1550); em cosnequência de se ter complicado a situação política de Ceilão, por motivos de concessões de D. João III, houve que recomeçar as negociações.
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Contra Bhuvaneka Bahu, levantou-se seu irmão Mayadunne, pelo que o Grande Rei mandou, de novo, pedir auxílio (1543) ao Vice-Rei da Índia. Aliás, algum tempo depois, os dois irmãos uniram-se para lutarem contra os príncipes, filhos de Bhuvaneka Bahu, que, auxiliados pelos Portugueses, eram um perigo real, no campo político.
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Pois bem, os assuntos representandos no cofre dizem respeito a esta embaixada, presidida por Sri Radaraks Pandita que recebeu o baptismo em 1552, ficando com o nome de D.Afonso de Noronha.
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Este cofre, com o nº.1242, está também exposto na Schatzkammer do Palácio Real de Munique, conhecido com a denominação de Risidens, é muito interessante igualmente. Esculpido em Ceilão, a sua montagem actual data de 1570 e teria sido feita em Munique ou Augsburgo. A matéria, porém, é a mesma: marfim, ouro, rubis, esmeraldas, pérolas etc.
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A forma é semelhante também, mas de dimensões um pouco mais pequenas: alt. 15 cm; larg. 25 cm; esp.14 cm. Este cofre existe já no inventário de 1598 (nº.1029).
Sua descrição:
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A) Relevos da parte frontal ou dianteira:
1) Na parte dianteira, subdividida em três compartimentos, vêem-se as seguintes cenas:
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a) No lado esquerdo, dois cavaleiro ocidentais lutam ou esgrimem num torneio. Na cena do torneio, os cavaleiros vestem "Ringharnische" que mais tarde puseram de parte a "Plattenharnischem" por causa do calor e do clima (Cartas de Afonso de Albuquerque, I, p. 296).
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b) Frente a frente, no centro, sentam-se à mesa um singalês, com os cabelos ligados e um europeu com chapeu e pluma e espada, o que mostra que se trata de uma reunião oficial: este europeu deve ser o Vice-Rei da Índia tendo, como convidado, o embaixador do Grande Rei de Ceilão. Por de trás da mesa, vê-se um grande cão. E de cada lado da fechadura, um friso com a fábula da cegonha e da raposa.
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Outra interpretação possível desta cena: estaria no compartimento central o Vice-Rei da Índia, acompanhado pelo Embaixador de Ceilão ou pela mãe dos Príncipes a tomar uma refeição servida por um criado e uma criada. O Embaixador empunha um cálice alto.
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c) Na terceira cena, à direita, um soldado, com fusil, atrás do Vice-Rei a cavalo, ostenta um chapeu alto que não é posterior ao 2º. do séc., XVI.
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2) Na tampa, do mesmo lado, dançarinas, com citara; os dançarinos principais têm cimbalos. As dançarinas, como no outro cofre, são apresentadas com grande movimento puro.
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No lado direito, uma grande personagem deve ser o Vice-Rei da Índia, acompanhado por dois guerreiros portugueses, um empunhando, elegantemente, a espada desenbainaha e outro com lança fincada no chão e escudo redondo.
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B) Parte traseira
Na parte traseira, três cenas de caça em que são flagrantemente surpreendidos os marinheiros portugueses; no compartimento, do lado esquerdo,dois portugueses com chapeu, acompanhados por um singalês com um escudo redondo, então a caçar: um espeta um animal com ferro (ou lança?) e outro faz pontaria com uma espingarda.
Ao centro, dois portugueses colhem fruta, enquanto outros dois se entretêem a atirar tiros de espingarda e a observar os astros com um telescópio. No lado direito, três portugueses empunham as espadas com amão direita, enquanto o terceiro observa admirado o que estes estão a fazer.
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Na parte da tampa, do lado das traseiras, umas dançarinas com os penteados, as arrecadas, as decorações do peito, semelhantes às do outro cofre. Igualmente os plissados. E nova a cena do juramento de vassalagem perante um senho singalês sentado.
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Na parte inferior, uma cena de caça, com macacos nas árvores, prova de que estas cenas eram conhecidas na Índia "wo die Flinten erst unter Affonso d´Albuquerque in Jahr 1512 ala Exportware aus Deutschaland (Fernão de Queiroz, accl, p.234 e segs.). As armas de fogo, realmente, só no tempo de Afonso de Albuquerque chegaram à Índia.
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C) Relevos laterais
Nos lados laterais ou topos, vê-se do lado, esquerdo, um cortejo triunfal com um elefante montado por três personagens, um grande da corte (o embaixador) e dois homens semi-nus. É o mais lindo relevo do cofre.
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Do lado oposto, representa-se Bhuvaneka Bahu com uma espada na mão direita; sentado, parece que vai levantar-se do seu trono. A sua coroa está inteiramente axial. Tem um ar supperior, com o seu título. Ele próprio se dizia (luz do mundo, planeta sem eclipse, Rei dos Reis, etc.)
Aliás não era bem assim...
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O seu irmão, Mayadunne, ao ter conhecimento do que se passara em Lisboa quanto à decisão tomada a respeito do trono, começou a guerra contra Bhuvaneka que não estava preparado e mandou pedir auxílio a Goa. Foi então que Sri Radaraksa Pandita, pouco depois de regressar de Lisboa, em Novembro ou Outubro de 1543, voltou a Goa a pedir auxílio e dinheiro, assunto que se representa nos relevos deste cofre.
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Quando à forma do trono, repara-se que Diogo do Couto (Decad.7ª. Liv.9, cap 10)fala de um trono que o Vice-Rei, D.Constantino de Bragança, quis enviar a El-Rei D. Sebastião quando tinha apenas 6 anos de idade. Como seria? Não se sabemos. Porém não será agora difícil imaginá-lo; os cofres de Munique ilucidam-nos cabalmente quanto à sua forma.
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Na tampa, do lado dianteiro, cenas de dança rítma, ritual, com duas mulheres ao centro e três de cada lado. No mesmo, do lado traseiro, outras cenas; no lado esquerdo, um guerreiro, talvez o seu chefe, com uma mulher nua; no centro, duas mulheres dançam com rítmo furioso; no da direita, dois homens e uma mulher, um dos quais, o do centro, está a dançar também.
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4.º Outros cofres semelhantes.
Não são únicos, no seu género, estes cofres de marfim provenientes de Ceilão (séc. XVi), existentes na Schtzlkammer, de Munique. A título complementar, citemos alguns.
Semelhante, se bem que sem relação directa com Portugal e de menos valor, existe um cofre de marfim no Kumsthistoriches Museum de Viena de Áustria (The Burlington Magazine for Connoisseurs, Ilusrated publisched monthli, vol. LXIX, LXIX,1936, p. 277) que é acompanhada por vários objectos: colher, garfo, etc.
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É assim classificado: Ivori casket, Singhalese Séc. XV. European, probably Dutch, mount of the second galf of the sixteen century, Heit, 14,9cm. Esta notícia é dada num artigo intitulado "Some eastern objects from Hapsburg Collection" por Wolfgang Born. Além deste, outros cofres ainda são conhecidos, peretencentes à arte de Ceilão:
1) Um no Bristish Museum, de princípios do séc. XVII provenientes da Índia do Sul; ostenta, no exterior, um friso com mulheres e músicos:
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2) outro no Índia Museum, em South Kensington, é decorado com figuras a dançar e animais; data de um tempo intermédio entre o do cofre do Bristish Museun e o de Viena que é mais antigo:
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3) além destes, outros cofres são estudados po K. de B. Codrington na The Burlington Magazine for Connoisseurs (Londres 1931, vol. LIX), num artigo intitulado e Western influences in Índia and Ceylon: a Group of Singhaleses Ivories.
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4) um outro cofre, que está exposto no "Volkerundemuseum" de Berlim, ostenta, igualmente, um cortejo com o elefante;
Mais. A arte de Ceilão, nos séculos XVIII e XIX, é muito pobre. Mas estes cofres provam que ela foi rica no séc. XVI. Porém, do que não há dúvida, é que estes cofres vieram de Ceilão para Lisboa e pertenceram a D. João III. Inexplicavelmente, porém, desde 1598, estão ma capital do reino da Baviera, em Munique.
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Assim, os dois cofres, vindos para Lisboa, certamente cheios de presentes terão sido adquiridos (ou alienados) já no século XVI; segundo o inventário citado, eram de proveniência indiana, o que aliás não é verdade, mas afirmação que se compreende, pois, para o inventariador do século XVI, Ceilão era Índia.
Assim, os dois cofres, vindos para Lisboa, certamente cheios de presentes terão sido adquiridos (ou alienados) já no século XVI; segundo o inventário citado, eram de proveniência indiana, o que aliás não é verdade, mas afirmação que se compreende, pois, para o inventariador do século XVI, Ceilão era Índia.
É sabido que, cofres, como estes, serviram, em geral para presentear grandes personagens. Por exemplo, Afonso de Albuquerque, em 1514, mandou preparar dois cofres de ouro para enviar ao Preste João (Rei da Abissínia) os quais deveriam ser-lhe entregues pelo seu embaixador. D.João de Castro deixou em Goa, um outro cofre que seria enviado oportunamente, como presente, ao Rei Mayadunne de Ceilão. Este cofre levaria dentro aneis, brincos, pentes, etc.
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Quanto a nós, os cofres de Munique, serviram, precisamente, para o mesmo fim: levaram, com certeza, para Lisboa missivas, pretensões e presentes que os embaixadores tinham o especial encargo de entregar. No caso presente dadas as referências a acontecimentos conhecidos, os cofres de Munique são datados como nenhuns outros (pouco posteriores a 1543?).
Pentes de marfim.
Com estes dois cofres, estão expostos, em Munique, três pentes de marfim, ricamente trabalhados (n.º 1243, 1244 e 1245), Não se sabe, porém, se as peças, que se encontram expostas, justamente (os pentes e o anel), podem ser parte deste recheio. É natural que sim.
Animais representados nos pentes: condor, lebre, pato leão, veado, elefante,etc..



























