.
O CLARIM –Treinou as equipas portuguesas do Boavista, do Salgueiros, do Varzim, do Leixões, do Penafiel, do Chaves, do Rio Ave, da Académica de Coimbra e do Paços de Ferreira. Em 2001 passou a orientar o Dong Tam Long An, clube fundado em 2000 e que ascendeu consigo à V-League, com o qual venceu, em 2005 e em 2006, o principal campeonato do Vietname. Como foi trabalhar num país onde o futebol não é assim tão evoluído, como por exemplo na Tailândia, na Malásia e em Singapura?
HENRIQUE CALISTO – O treinador precisa de tempo. E o tempo faz com que haja uma aprendizagem. Na Europa, os jogadores têm uma aprendizagem mais precoce, fruto da competição sistemática que há todos os Domingos, logo a partir dos dez anos. Na Ásia, mais concretamente no Vietname e na Tailândia, isso acontece. Só a partir dos 18 anos é que começam a ter uma competição profissional. Quer isto dizer que o trabalho de formação é mau. É baseado só no treino, pois a competição é pouca.
.
CL –Em 2008, como seleccionador do Vietname, venceu de forma surpreendente, contra a Tailândia, o campeonato do Sudeste Asiático, ou seja, a AFF Suzuki Cup (antiga Tiger Cup). Mais recentemente, em Março do corrente ano, iniciou uma nova etapa da sua carreira profissional no clube tailandês do Muangthong United. Como avalia o futebol que é praticado nos dois países?
H.C. – Os jogadores do Vietname são rápidos, embora não muito evoluídos em termos físicos. A partir da vinda de treinadores estrangeiros, a selecção deu um grande salto qualitativo nos últimos anos. Na Tailândia, os futebolistas têm maior envergadura e são mais fortes. É nestes dois países – seguidos pela Malásia – onde estão as melhores infra-estruturas do Sudeste Asiático. No entanto, a qualidade do treino ainda é fraca.
.
CL –Há treinos bidiários?
H.C. – Os jovens, muitas vezes, fazem bidiários. Depende sempre do momento da época. São todos jogadores estritamente profissionais, mesmo aqueles, por exemplo, com 16 anos. Neste caso, são juniores e juvenis que treinam, estudam e dormem no centro de estágio do Muangthong United. Contudo, falta depois o essencial. Treinar é importante, mas mais importante do que isso é a competição. Infelizmente, o campeonato deles tem poucos meses de duração.
.
CL –É verdade que rescindiu o contrato com a federação do Vietname porque não aguentou a pressão da imprensa, após a derrota com a Malásia, na primeira mão da meia-final, na 2010 AFF Suzuki Cup?
H.C. – Não foi bem assim. Fomos derrotados na Malásia por dois a zero, sem podermos contar com seis jogadores principais. Empatámos depois em casa a zero golos. Não fomos à final. Acabámos em terceiro lugar. Estive cerca de dez anos e meio no Vietname. Já estava saturado. Ser seleccionador é mais fácil do que treinar um clube. A Comunicação Social vietnamita é extremamente exigente e orgulhosa. As condições que [os dirigentes federativos] estipulam nos contratos é que há sempre motivo para rescisão por justa causa com o treinador, caso a selecção não seja campeã ou não vá à final da Suzuki Cup. É de uma arrogância que não se vê em lado nenhum. Na última edição, as selecções da Tailândia e de Singapura foram eliminadas na fase de grupos; mas o Vietname ficou em primeiro lugar, no Grupo B. Isto aborrece-me. Sei que sou bastante acarinhado pela população, o que não acontece com alguma imprensa vietnamita, os tablóides, que passam a vida a dizer mal do seleccionador e dos jogadores.
.
CL –Quer concretizar?
H.C. – O Arsenal não ganha um título há cerca de cinco anos, mesmo com o Fabregas [transferiu-se há pouco tempo para o Barcelona] e com o Nasri. Só agora é que há alguma contestação. Contudo, é uma equipa que joga bem. Ninguém ganha sempre. O importante é ir vencendo alguns títulos. A selecção de Portugal nunca ganhou um título nos seniores; mas tem vindo a apurar-se para as grandes finais [mundial e europeu]. Nos últimos anos tem estado sempre no «top ten» do ranking da FIFA. No Vietname, uma selecção que nunca venceu nada, a exigência é a de ganhar sempre. Durante os cerca de dez anos em que trabalhei neste País nunca fiquei abaixo do 3º lugar.
Mudança de mentalidade
.
CL – Macau disputou, há cerca de dois meses e meio, – precisamente contra o Vietname, – a 1ª pré-eliminatória de apuramento da Confederação Asiática de Futebol (AFC, na sigla inglesa) para o Mundial de 2014. Que comentário à prestação da equipa da Flor de Lotus?
H.C. – Vi o resumo dos dois jogos aqui na Tailândia, pela internet. Macau tem pouca consistência organizativa. Uma equipa, mesmo que seja fraca, não pode perder em casa, por sete a um. Isto é do submundo do futebol. Se os jogadores de Macau tivessem mais organização táctica e técnica que pudesse suster o Vietname... Mas não!
CL –A selecção que já treinou apresentou-se na máxima força?
H.C. – Jogou com algumas deficiências, em termos dos dois centrais e do guarda-redes. Faltavam quatro ou cinco jogadores. Por outro lado, Macau não teve consciência organizativa, nem táctica, nem uma mentalidade positiva. Por isso, sofreu sete golos em casa, depois de ter perdido fora, por seis a zero.
.
CL –Falta qualidade?
H.C. – Pelo que vi, falta muita qualidade à selecção de Macau. É preciso começar pelo conhecimento táctico, pela estrutura e pela consistência táctica, para que os jogadores possam depois ter uma outra atitude dentro do campo.
.
CL –Qual a sua sugestão?
H.C. – Escolhia três ou quatro treinadores de Macau e colocava-os num clube português, onde ficariam durante dois ou três meses, por exemplo, no FC Porto, no SL Benfica, no Sp. Braga, no Sporting CP ou noutro clube mais pequeno. É extremamente fácil. Aprendiam com os treinadores portugueses e podiam também frequentar cursos de formação. Depois, é necessário que haja infra-estruturas em Macau, bem como um plano de desenvolvimento, ou seja, criar centros de formação de talentos, onde os futebolistas possam treinar com grandes treinadores para lhes transmitir, assim, uma atitude competitiva.
.
CL –Há muitos amadores e alguns semiprofissionais que actuam no principal campeonato de Macau. Esta é uma mentalidade que deve ser alterada?
H.C. – Não há evolução com o amadorismo. O futebol não é uma ilha no mundo; é um reflexo da sociedade. Na sociedade, as grandes empresas e as grandes escolas não são amadoras; há dedicação exclusiva. Se quisermos fazer qualquer coisa na vida, tem de haver disciplina, rigor e saber. Caso contrário, não há hipótese de sucesso.
.
CL –Macau é um território onde não falta dinheiro; com uma área terrestre a rondar os 29 km², tem três campos de futebol. A selecção está classificada no 192º lugar do ranking da FIFA. O que mudaria, caso fosse convidado para treinar a equipa da Flor de Lótus?
H.C. – Em primeiro lugar, há que treinar. Não acredito que haja talentos, sem trabalho. O talento é 15 %. O resto é trabalho. Desengane-se quem pense que o Cristiano Ronaldo nasceu com talento. Teve, isso sim, que trabalhar muito. Ainda hoje ele repete de forma sistemática a marcação de livres. Tem de haver um trabalho, não em quantidade, mas sim em qualidade. O desenvolvimento tem de ser orientado, com objectivos.
.
CL – O que mudaria mais?
H.C. – Mudaria o recrutamento, ou seja, a forma de saber quem são os talentos. Não basta investir. Nos países ou territórios pequenos é preciso investir naqueles futebolistas que têm qualidade. Por outro lado, nos países de maiores dimensões há uma pirâmide de desenvolvimento, onde se pode começar com muitos para escolher os melhores.
CL –Quem estará apto para efectuar este trabalho?
H.C. – Não pode ser qualquer um. Conheço treinadores que foram grandes jogadores, mas que em termos de detecção de talentos são zero. Em Macau essa detecção tem de acontecer numa idade muito precoce. É preciso saber quem são os miúdos com capacidades para desenvolver as suas potencialidades e, obviamente, trabalhar com eles.
.
CL –Há muitos emblemas de futebol que, de certa forma, sobrecarregam a carga horária das infra-estruturas desportivas. Defende a racionalização de equipas?
H.C. – Isso é importante.
.
CL –Que importância atribui ao desporto escolar?
H.C. – É fundamental. Nas escolas há que «agarrar» esses jovens com potencial e levá-los para um centro de formação específico, para que possam desenvolver a suas potencialidades futebolísticas. Não há grandes escolas, sem grandes professores, sejam elas de ensino superior, de ensino não superior ou escolas de formação desportiva.
CL – Que dividendos deve Macau tirar do relacionamento com Portugal?
H.C. – Há uma relação privilegiada com Portugal. Por isso, não percebo por que razão esse factor não está a ser aproveitado por Macau.
Experiência tailandesa
.
CL –O Muangthong United é o actual bicampeão da Tailândia. Está em condições para revalidar o título?
H.C. – Aqui há uma grande conexão com a política. O emblema que vai à frente é o Buriram, que é dirigido pelo líder dos «camisas azuis», ou seja, por um dissidente do grupo de Thaksin [Shinawatra]. Exige-se, à partida, que eu renove o título; mas, quando aqui cheguei, o clube estava em penúltimo lugar, entre 18 equipas. O nosso plantel encontra-se numa fase de renovação. Por isso, não se compara com o Buriram, que é muito forte. Recuperámos, entretanto, e estamos agora em 3º lugar.
CL –Que competições estão a disputar?
H.C. – Estamos em todas as frentes, ou seja, na Thai League [campeonato], na Toyota League Cup [Taça da Liga] e na Thai FA Cup [Taça da Tailândia]. Nas competições asiáticas de clubes, no próximo dia 27 de Setembro, vamos disputar em casa a segunda mão dos quartos-de-final da AFC Cup, contra o Kuwait SC [derrota por 1-0, na primeira mão]. Há, pois, um desgaste terrível.
.
CL – Como vê, a contratação do ex-jogador do Liverpool, Robbie Fowler, em Março último? Trata-se de uma estratégia de «marketing»?
H.C. – Foi um jogador extraordinário na Premier League [de Inglaterra]. É uma lenda; jogou ainda dois anos na Austrália. É uma excelente pessoa. Tem 36 anos de idade. Já não é o que era como futebolista. É uma estratégia de «marketing» do Muangthong United.
|