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sexta-feira, 22 de junho de 2012

A CORJA DOS AUTO-NOMINADOS DONOS DE PORTUGAL



Ex-administrador do BPN acusa Constâncio e Teixeira dos Santos

Ex-administrador do BPN acusa Constâncio e Teixeira dos Santos 
RTP

Meira Fernandes acusou o antigo governador do Banco de Portugal e o ex-ministro das Finanças de terem agravado a situação do BPN com declarações feitas na altura em que o ‘escândalo’ rebentou. O antigo administrador do banco entretanto nacionalizado disse ainda que o Estado teria poupado 380 milhões de euros se tivesse seguido o 'plano Cadilhe'.

"A partir do momento em que começámos a comunicar ao Banco de Portugal o que íamos encontrando, o Banco de Portugal começou a reagir como se o mensageiro fosse culpado da mensagem. 
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As relações começaram a ser azedas", relatou Meira Fernandes, respondendo a questões do deputado do CDS João Almeida, o primeiro a inquiri-lo durante a audição ao antigo administrador do BPN no âmbito da segunda Comissão de Inquérito ao BPN.Ouvido esta sexta-feira na segunda Comissão de Inquérito ao BPN, o antigo administrador responsabilizou os dirigentes pelo agravamento da liquidez da instituição bancária, ao assustarem depositantes e mercados.
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Meira Fernandes, que integrava a administração do Banco Português de Negócios (BPN) na altura da nacionalização, condenou a atuação do Banco de Portugal em todo o processo, repetindo algumas das críticas já avançadas por Miguel Cadilhe na semana passada, igualmente na segunda Comissão de Inquérito ao BPN. Segundo Meira Fernandes, além de o Banco de Portugal ter sido “negligente” na supervisão ao BPN, o seu comportamento "conduziu ao agravamento da liquidez" do banco.

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"Quem assustou [os depositantes] foi o governador do Banco de Portugal, provavelmente involuntariamente, ao afirmar em outubro que havia dois bancos pequenos com problemas, que éramos nós e o Finibanco", acusou o antigo administrador do BPN. Para Meira Fernandes, tais declarações de Vítor Constâncio, agravadas por afirmações de Teixeira dos Santos que “alimentaram a situação”, terão provocado uma corrida aos depósitos, incluindo de entidades públicas como a Casa da Moeda e a Segurança Social.

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"A forma miserável como [o Banco de Portugal] nos foi apoiando, com montantes mínimos, aos pinguinhos, e a não intervenção quanto ao levantamento dos depósitos pelos organismos públicos. Tudo isto contribuiu para o agravamento da liquidez", acusou o ex-administrador do banco nacionalizado em novembro de 2008.

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Ainda assim, afirmou Meira Fernandes, a "sangria" de depósitos no BPN deu-se apenas após a nacionalização, porque as "pessoas não acreditaram muito na intervenção do Estado". Os depósitos, que em 2008 eram de 4,4 mil milhões de euros, caíram para 1,68 mil milhões de euros, especificou Meira Fernandes.

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Estado teria poupado 380 milhões com “plano Cadilhe” Ana Catarina Mendes perguntou diretamente a Meira Fernandes quantos economistas, em 2008, apoiaram a viabilidade do "plano Cadilhe" para a recuperação do BPN. Meira Fernandes respondeu: "Provavelmente nenhum". "Provavelmente na altura estava toda a gente com a nacionalização, assim como agora está toda a gente contra a nacionalização".
 
"Provavelmente nenhum" reputado economista português acreditou na viabilidade do ‘plano Cadilhe’ para recuperar o BPN sem recurso à nacionalização, admitiu Meira Fernandes à pergunta direta da deputada socialista Ana Catarina Mendes. Contudo, o antigo administrador do banco defendeu que o resgate à instituição teria custado menos 380 milhões de euros se o plano tivesse sido aceite.

"Como havia uma participação dos acionistas de 380 milhões de euros, em qualquer caso era sempre menos 380 milhões de euros. É aritmética, porque o Governo podia depois nacionalizar [o banco] em qualquer altura", defendeu Meira Fernandes.


O plano de reestruturação de Miguel Cadilhe, então presidente do BPN, passava por um misto de capitais públicos e privados, com a injeção de 380 milhões de euros pelos acionistas, enquanto o Estado entrava com 600 milhões de euros em ações preferenciais, com um dividendo prioritário.

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No entanto, o Governo de José Sócrates optou pela nacionalização do banco, decisão igualmente criticada por Meira Fernandes durante a audição. Para o responsável, o argumento de risco sistémico utilizado pelo executivo não se colocava para um banco que tinha dois por cento de quota de mercado. Para além disso, o Governo terá recusado a injeção dos 600 milhões de euros devido aos “custos para os contribuintes”, quando essa cedência de capital era "remunerada" e com "dividendo prioritário", e depois considerou que a nacionalização seria a melhor opção.

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Procurando responder às críticas de Meira Fernandes, Ana Catarina Mendes relembrou que "nem os acionistas conseguiram fazer a injeção de capital" que o conselho de administração precisava para o plano Cadilhe e voltou a defender a existência de risco sistémico. "Não se pode dizer que, a partir de 2008, não aconteceu nada na Europa ao nível da crise do sistema financeiro e não se pode dizer que o risco sistémico [decorrente da falência do BPN] era um fantasma. Em vários países da Europa houve bancos nacionalizados", observou a deputada do PS.

“Fomos completamente enganados”

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O ex-administrador do BPN afirmou que a sua equipa, liderada por Miguel Cadilhe, foi "completamente enganada", inclusive “por alguns dos acionistas” da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), numa alusão ao facto de a equipa desconhecer o teor de um documento intitulado "estado da Nação" sobre a situação do grupo.
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De acordo com Meira Fernandes, a sua equipa entendia que a SLN deveria opor-se à nacionalização do BPN proposta pelo Governo, apresentando duas ações, uma delas sobre os critérios de avaliação do valor patrimonial do banco para efeitos de indemnização.

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"Mas alguns acionistas entenderam que isso não seria bom, porque demorava anos e criava maiores dificuldades. A certa altura apercebemo-nos que a SLN não veria com maus olhos se nós saíssemos, porque preferiam pôr pessoas eventualmente mais competentes e mais flexíveis (no sentido de saber negociar)", disse Meira Fernandes. “Presumo que eles [acionistas da SLN] não ficaram tristes por nós termos saído", acrescentou.