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quinta-feira, 23 de maio de 2013

A RITA DE CARVALHO DEIXOU-NOS...!!!


Deixou-nos a Rita, uma jovem e  brilhante arqueológa/historiadora, interessada pela história de Portugal na Tailândia, que muito dela se esperava.  Estremeci, senti a dor de perder uma jovem amiga e duas lágrimas escorregaram pela minha face quando hoje recebi um e-mail do pai Luis da Rita, a comunicar-me:

"Caro amigo Martins 
Tenho um pressentimento que o amigo desconhece o que aconteceu à minha filha Rita Bernardes de Carvalho.... Exatamente aquela em que está a pensar; a historiadora, a jovem bonita, educada, muito trabalhadora, amiga do seu amigo, brilhante investigadora na Sorbonne (Paris), que conviveu com o Sr. e com a sua familia, essa mesmo faleceu no passado dia 14 de Abril! Sou o pai da Rita e é com profunda mágoa e muita tristeza que lhe dou conta deste triste e inesperado acontecimento.A Rita lutou bravamente (uma das suas melhores qualidades!) durante praticamente 4 anos contra um malvado cancro na glândula salivar. Morreu em Portugal junto dos seus e terminou a vida de forma serena e tranquila. Isto pese embora tenha feito 17 operações... Uma grande Mulher que deixa enorme saudade em todos aqueles que com ela conviveram! Agradeço-lhe tudo o que fez por ela, o apoio que lhe prestou, o acolhimento em sua casa.. Tudo. Muito Obrigado!!! Muita saúde para si e para toda a sua família."
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Pouca gente conheceu o valor da Rita de Carvalho, sua vontade de viver e o interesse profundo sobre a história de Portugal na Tailândia. Transcrevo um artigo que escrevi em Junho de 2007.

RITA DE CARVALHO - A arqueóloga e historiadora

Foi há dois anos (Março de 2005) que uma jovem contactou-me por e-mail.
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O meu endereço, electrónico tinha-o encontrado no website de minha filha Maria www.aquimaria.com onde tinha lido várias peças escritas por mim.
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A Rita de Carvalho solicitava a minha ajuda em cima dos factos, históricos, relativos a Portugal e a Tailândia. Na mesma altura do recebimento de sua comunicação, desde logo lhe ofereci o meu apoio e hospedagem, graciosa, em minha casa. Assim como "vasculhar" toda a minha biblioteca particular; copiar todo o material escrito e de imagem.
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Precisamente no dia de sua chegada ao aeroporto internacional da capital tailandesa (a um Domingo de Abril) não me encontraria em casa. Minha mulher encarregou-se de esperar pela Rita no aeroporto e instalá-la em nossa casa onde por cerca de 15 dias viveu.
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A seguir às primeiras palavras trocadas analiso que estou perante uma jovem, ambiciosa, de 22 anos e interessada na investigação histórica entre Portugal e a Tailândia.
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Depois de duas semanas em Banguecoque, transportei-a no meu carro a Aiutaá (ex-capital do Reino do Sião) e deixei-a numa daquelas "guest house" de preço inferior a 10 euros por dia populares entres os jovens pouco endinheirados.
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Dei-lhe algumas orientações, nomes e endereços de pessoas (velhas amigas), historiadores e arqueólogos, tailandeses. Rita de Carvalho correu Aiutaá de bicicleta e motorizada.
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Só, orientando-se, pelo mapa da velha capital (caída em 1767); foi ao "Ban Portuguete" (aldeia dos portugueses); ao Yammada (campo dos japoneses); Campo dos Holandeses; fortins, pedaços de muralhas, junto às margens do Rio Chao Praiá; museu e mais aquilo que lhe interessava. Tirou apontamentos e fez imagens.
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Partiu de Banguecoque para Paris onde estuda, graças a uma bolsa conferida por uma instituição, cultural, francesa. Subsídio que em Portugal, não conseguiu, mesmo contactando fundações, vocacionadas para a cultura, a ajuda que necessitava para concretizar o desejo de obter a licenciatura em arqueologia e história.
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A sua tese seria em cima da história de Portugal e a Tailândia. Bem poderia ter optado por uma tese sobre a factos históricos franceses, mas Rita preferiu desenvolver o seu trabalho de investigação académico e histórico relacionada com o passado de Portugal na Tailândia.
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A Rita voltou há três meses, novamente, a Banguecoque. Com ela o livro de sua tese com cerca de 200 páginas que me ofereceu. Um documento, histórico, excepcional, bem desenvolvido, de vários que conheço. Vamos designar a introdução do livro inserido na primeira página:
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Ecole Pratica des Hautes Etudes
IVe Section Sciences Historiques et Philologiques
Rita BERNARDES DE CARVALHO
La Présence portugaise à Ayuthaya (Siam) aux XVIe siécles
Mémoire de Mater de Sciences Historiques et Religieuses, mention, sous la direction de Mme le Professeur Dejanirah Silva - Couto, Maitre de Conférences
Paris 2006
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Na Tailândia a jovem estudante portuguesa tem contactado colegas, tailandeses e associar-te a trabalhos de escavações em vários pontos do país.
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Depois de uma estadia de três meses, divididos, pela Tailândia e Cambodja, regressou, no príncipio de Junho (2007) a Paris, onde vai dar a continuação à investigação. Nos seus projectos está a permanência de um ano na Holanda, investigar as ligações de séculos, entre a Holanda, Tailândia e Portugal.
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Da Rita há muito a esperar, não só pela sua juventude, como pelo interesse demonstrado pelas ligações históricas entre Portugal e a Tailândia. Em 2011 vão ter ter lugar as celebrações dos 500 anos da chegada dos portugueses à Tailândia. Portugal foi o primeiro país europeu a ter relações de amizade, comércio e navegação com o Reino do Sião.
José Martins/Junho2007
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Depois de ler a obra da Rita, fui levá-la ao então chefe de missão de Portugal na Tailândia embaixador Faria e Maya que a viria a recomendar à Fundação Calouste Gulbenkian. Em Janeiro de 2008 a Rita veio à Tailândia a expensas da Gulbenkian, como historiadora/arqueóloga e supervisionar as escavações da Igreja de São Paulo, dos Jesuitas, no "Ban Portuguet" (Aldeia dos Portugueses), cuja estas nunca chegaram a realizarem-se dado que voz da "maldade" (nunca ali se deu a primeira escavadela), teria informado a Gulbenkian que ali nunca existiu uma igreja mas um templo budista.
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A Rita morreu demasidamente jovem e na idade dos 30 anos quando dela havia muito a esperar.
Paz à sua alma.
José Martins

Obras que nos legou a Rita Bernardes de Carvalho
 


2011
BERNARDES DE CARVALHO, Rita, "A “snapshot” of a Portuguese community in Southeast Asia: The bandel of Siam, 1684-86", in Portuguese and Luso-Asian Legacies in Southeast Asia, 1511-2011, vol. 2: Culture and Identity in the Luso-Asian World: Tenacities and Plasticities, ISEAS, Singapore, 2011, p. 44-66 (no prelo).


2010
BERNARDES DE CARVALHO, Rita, “Ayutthaya”, in Património de Origem Portuguesa no Mundo: arquitetura e urbanismo, vol. Ásia Oceania, coordenação de Walter Rossa, direcção de José Mattoso, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2010, p. 426-427.


2009
BERNARDES DE CARVALHO, Rita, “Bitter Enemies or Machiavellian Friends? Exploring the Dutch–Portuguese Relationship in Seventeenth-Century Siam”, in Anais de História de Além-Mar, vol. X, 2009, p. 361-385, disponível aqui.

BERNARDES DE CARVALHO, Rita, “Sião”, in Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa (EVE), 2009, disponível aqui ou em < http://www.cham.fcsh.unl.pt/eve/ >.


2008
BERNARDES DE CARVALHO, Rita, “From Landscape To Landmarks: Paths Through The Memory Of The People”, in Memory, Oblivion, History – Essays from the Crayenborgh Honours Class 2008, Leiden University, 2008.


2006
BERNARDES DE CARVALHO, Rita, La présence portugaise à Ayutthaya (Siam) aux XVIe et XVIIe siècles, tese de Mestrado policopiada, Ecole Pratique des Hautes Etudes, Paris, 2006, disponível aqui.