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terça-feira, 28 de maio de 2013

CARTA AOS 19% de desempregados, Gato Fedorento




CARTA AOS 19% (Ricardo Araújo
                                Pereira) Caro desempregado, Em nome de
                                Portugal, gostaria de agradecer o teu
                                contributo para o sucesso económico do
                                nosso país. Portugal tem tido um
                                desempenho exemplar, e o ajustamento
                                está a ser muito bem-sucedido, o que não
                                seria possível sem a tua presença
                                permanente na fila para o centro de
                                emprego. Está a ser feito um enorme
                      
 
 
 
       esforço para que Portugal recupere a
                                confiança dos mercados e, pelos vistos,
                                os mercados só confiam em Portugal se tu
                                não puderes trabalhar. O teu desemprego,
                                embora possa ser ligeiramente
                                desagradável para ti, é medicinal para a
                                nossa economia. Os investidores não
                                apostam no nosso país se souberem que tu
                                arranjaste emprego. Preferem emprestar
                                dinheiro a pessoas desempregadas.
                                Antigamente, estávamos todos a viver
                                acima das nossas possibilidades. Agora
                                estamos só a viver, o que aparentemente
 
      
      
      
             continua a estar acima das nossas
                                possibilidades. Começamos a perceber que
                                as nossas necessidades estão acima das
                                nossas possibilidades. A tua necessidade
                                de arranjar um emprego está muito acima
                                das tuas possibilidades. É possível que
                                a tua necessidade de comer também
                                esteja. Tens de pagar impostos acima das
                                tuas possibilidades para poderes viver
                                abaixo das tuas necessidades. Viver mal
                                é caríssimo. Não estás sozinho. O
                                governo prepara-se para propor rescisões
                                amigáveis a
 milhares
 de
 funcionários
     
                           públicos. Vais ter companhia. Segundo o
                                primeiro-ministro, as rescisões não são
                                despedimentos, são janelas de
                                oportunidade. O melhor é agasalhares-te
                                bem, porque o governo tem aberto tantas
                                janelas de oportunidade que se torna
                                difícil evitar as correntes de ar de
                                oportunidade. Há quem sinta a tentação
                                de se abeirar de uma destas janelas de
                                oportunidade e de se atirar cá para
                                baixo. É mal pensado. Temos uma dívida
                                enorme para pagar, e a melhor maneira de
                   
            
 conseguir
 pagá-la é impedir que
 um
                                quinto dos trabalhadores possa produzir.
                                Aceita a tua função neste processo e não
                                esperneies. Tem calma. E não te
                                preocupes. O teu desemprego está dentro
                                das previsões do governo. Que diabo,
                                isso tem de te tranquilizar de algum
                                modo. Felizmente, a tua miséria não
                                apanhou ninguém de surpresa, o que é
                                excelente. A miséria previsível é a
                                preferida de toda a gente. Repara como o
                                governo te preparou para a crise. Se
                                acontecer a Portugal o mesmo que ao
   
                 
           
 Chipre, é deixá-los ir à tua
 conta
                                bancária confiscar uma parcela dos teus
                                depósitos. Já não tens lá nada para ser
                                confiscado. Podes ficar tranquilo. E não
                                tens nada que agradecer
CARTA AOS 19%
(Ricardo Araújo Pereira) Caro desempregado,


Em nome de Portugal, gostaria de agradecer o teu contributo para o sucesso económico do nosso país. Portugal tem tido um desempenho exemplar, e o ajustamento está a ser muito bem-sucedido, o que não seria possível sem a tua presença permanente na fila para o centro de emprego.  . Está a ser feito um enorme esforço para que Portugal recupere a confiança dos mercados e, pelos vistos, os mercados só confiam em Portugal se tu não puderes trabalhar. O teu desemprego, embora possa ser ligeiramente desagradável para ti, é medicinal para a nossa economia. Os investidores não apostam no nosso país se souberem que tu arranjaste emprego. Preferem emprestar dinheiro a pessoas desempregadas.
.  
Antigamente, estávamos todos a viver acima das nossas possibilidades. Agora estamos só a viver, o que aparentemente continua a estar acima das nossas possibilidades. Começamos a perceber que as nossas necessidades estão acima das nossas possibilidades. A tua necessidade de arranjar um emprego está muito acima das tuas possibilidades. É possível que a tua necessidade de comer também esteja. Tens de pagar impostos acima das tuas possibilidades para poderes viver abaixo das tuas necessidades. Viver mal é caríssimo.
.  
Não estás sozinho. O governo prepara-se para propor rescisões amigáveis a milhares de funcionários públicos. Vais ter companhia. Segundo o primeiro-ministro, as rescisões não são despedimentos, são janelas de oportunidade.  . O melhor é agasalhares-te bem, porque o governo tem aberto tantas janelas de oportunidade que se torna difícil evitar as correntes de ar de oportunidade. Há quem sinta a tentação de se abeirar de uma destas janelas de oportunidade e de se atirar cá para baixo. É mal pensado. Temos uma dívida enorme para pagar, e a melhor maneira de conseguir pagá-la é impedir que um quinto dos trabalhadores possa produzir. Aceita a tua função neste processo e não esperneies.
.  
Tem calma. E não te preocupes. O teu desemprego está dentro das previsões do governo. Que diabo, isso tem de te tranquilizar de algum modo. Felizmente, a tua miséria não apanhou ninguém de surpresa, o que é excelente. A miséria previsível é a preferida de toda a gente. Repara como o governo te preparou para a crise. Se acontecer a Portugal o mesmo que ao Chipre, é deixá-los ir à tua conta bancária confiscar uma parcela dos teus depósitos. Já não tens lá nada para ser confiscado. Podes ficar tranquilo. E não tens nada que agradecer