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quarta-feira, 15 de maio de 2013

O labirinto português de Isabel dos Santos





Pedro Santos Guerreiro Director
Respire fundo: vamos falar da declaração de interesses de Isabel dos Santos. Isabel dos Santos tornou-se a maior accionista da Zon. Vai ser parceira da Sonaecom na fusão entre a Zon e a Optimus; a Zon tem outros accionistas, incluindo o BES (e a Ongoing e Joaquim Oliveira e a Visabeira).

A Zon e a Optimus, fundidas, vão ser um grande concorrente da PT. Isabel dos Santos é parceira da PT em Angola, na Unitel. E levou a Zon também para Angola, através da Zap, que controla. A PT tem outros accionistas, incluindo o BES (e a Ongoing e Joaquim Oliveira e a Visabeira). Isabel dos Santos é accionista do BES Angola.

O BES Angola tem outros accionistas como a Portmill, que terá ligações ao general Kopelipa, e Álvaro Sobrinho. Mas a grande ligação de Isabel dos Santos à banca portuguesa está no BPI, de que se tornou a segunda maior accionista. O BPI tem ligações históricas à Sonae. A Sonae é parceira de Isabel dos Santos em Angola, para instalação de novos hipermercados. Isabel dos Santos é ainda parceira de negócios de Américo Amorim, no BIC (que comprou o BPN) e na Galp.

Confuso? Leia outra vez o parágrafo anterior, devagarinho, é preciso fôlego. E depois de reler tire uma conclusão. Mas não a conclusão de que isto está tudo entre amigos. De amigos esta gente tem pouco. Quer ver? Isabel dos Santos, filha de José Eduardo dos Santos, tornou-se uma grande parceira de Paulo Azevedo, filho de Belmiro de Azevedo, que por sua vez nunca quis nada com Angola. Isabel dos Santos tem sido elogiada por Ricardo Salgado, que a prefere a outro parceiro, Álvaro Sobrinho, que não prefere nenhum dos dois, nem Ricardo Salgado nem Isabel dos Santos. Sócia da Zon e da PT, Isabel dá-se com a administração de Henrique Granadeiro tão bem como a administração de  Henrique Granadeiro se dá com Isabel: com temperaturas abaixo de zero.

A PT nada manda em Angola, mas recebe milhões em dividendos. Isabel dos Santos prefere dar o braço a Rodrigo Costa, da Zon, e a Fernando Ulrich, do BPI. Já com Américo Amorim, um braço está sempre dado e outro está sempre com o punho no ar: são sócios na Galp, onde manda Américo, e no BIC, onde manda Isabel. Uma associação de puro interesse em que nenhum dos dois se atreve a virar costas ao outro. Nem com molho de tomate.

Isabel dos Santos tem 39 anos, é a mais nova de todos estes personagens portugueses citados e parece ter o futuro de quase todos eles nas suas mãos. Não apenas pelas participações directas que Isabel dos Santos tem nas empresas em Portugal, através das mais magníficas offshores muitas vezes financiadas por bancos portugueses -, mas sobretudo pelas dependências destas empresas em Angola.

Como Mona Lisa enigmática, Isabel dos Santos recusou-se até hoje a dar uma entrevista que fosse em Portugal. Cá, tem um "presidente" ainda mais discreto e publicamente desconhecido que a própria empresária, de nome Mário Silva, uma iminência parda cada vez mais respeitada e influente entre nós. Este ano, o Negócios elegeu-a como a 9.a personalidade mais poderosa da economia portuguesa. É cada vez mais fácil explicar porquê. Até porque vivemos uma era em que não se pergunta mais de onde vem o dinheiro, apenas para onde vai ele. "De onde vem o dinheiro?" era uma pergunta antiga, agora é antiquada. BPI, BES, BIC, BPN, Zon, PT, Sonaecom e Galp: o bouquet de interesses de Isabel dos Santos em Portugal, explícitos ou contrariados, tem sido muito pouco" notório.

Mas é, convenhamos, notável. Isabel dos Santos não é um
colosso, é um conglomerado.
psg@negocios.pt