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segunda-feira, 20 de maio de 2013

TIMOR-LESTE: BAÚ DE MINHAS RECORDAÇÕES


Hoje, passados 11 anos, foi celebrado em Díli Timor-Leste a independência seguindo-se ao referendo de 1999, que concretiza a vontade dos timorenses.Altas individualidades, políticas, portuguesas e estrangeiras estiveram no território a celebrar o importante acontecimento. Porém aquelas pessoas, anónimas, que muito contribuíram para esse sucessos foram as grandes ignoradas.
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Evidentemente que eu em Banguecoque, estive dentro da luta para essa autodeterminação quando o caminho ainda era longo a percorrer. A primeira vez que ouvi um político português a defender a causa de Timor-Leste, foi de quando o Prof. Cavaco Silva, em 1987, vindo da China onde foi tratar com as autoridades chinesas o Acordo da entrega da administração do antigo enclave, que viria acontecer no final de 1999, numa conferência de imprensa na Embaixada de Portugal.
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Defendeu a autodeterminação do território e denunciou as violações dos direitos humanos pela a Indonésia, à gente timorense. Mas as palavras de Cavaco Silva, proferidas em Banguecoque não fizeram efeito algum.
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Os países do Sudeste asiático, estavam ao lado do parceiro mas forte da ASEAN, a Indonésia. Nada se conhecia em cima da tragédia que o Povo de Timor estava a sofrer. A comunicação social da capital tailandesa ignorava o assunto, por falta de conhecimento. Timor-Leste terra esquecida!
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Portugal tinha entrado na União Europeia, os governantes, estavam ocupadíssimos, onde deveriam aplicar os fundos e as negociações com a Indonésia ficariam para tarde, ou até ao “ao dia de São Nunca”. O Dr. Ramos Horta, em verdade, não era figura que eu já conhecesse a lutar pela causa da independência.
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Demoraria ainda, 7 anos, que ele viesse ao meu encontro, que narrarei, mais adiante. Timor era uma ilha, enclave, à mercê de sevícias e exploração pelas tropas da ocupação indonésias.
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Em Julho de 1987, foi recebida, na Embaixada de Portugal, em Banguecoque, uma carta do jornalista Nuno Rocha (falecido recentemente) para que a missão lhe prestasse assistência, perante as autoridades tailandesas, dado que tinha planeado uma visita aos campos de refugiados cambojanos e vietnamitas na fronteira da Tailândia.
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O Embaixador Mello-Gouveia encarregou-me para tratar das formalidades; a entrega de uma Nota com um pedido dirigido ao Ministério de Defesa da Tailândia para autorizar a visita ao campo de refugiados. Acompanhei o Nuno ao campo de refugiados, durante três dias, tivemos de assinar um termo de responsabilidade perante as autoridades militares, tailandesas. na hipóteses da viatura pisar uma mina na picada e fossemos pelos ares.
Ora o Nuno Rocha, um dos melhores jornalistas, entre os vários que conheci em Banguecoque, conseguiu, entrar em Timor-Leste, coisa proibitiva a qualquer jornalista português penetrar em Timor.
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Consegui-o dado ao seu perfil e ladino jornalista. Mas vamos transcrever o que o Nuno escreveu e publicado no “Tempo” que era director: “ em 25 de Julho encontrava-se em Bangkok para participar numa conferência sobre os refugiados do Camboja e do Vietname, quando li uma notícia no “Bangkok Post” anunciando a passagem pela capital da Tailândia, vindo de Hanói do ministro da Indonésia Mochtar... “ .
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Sem estar a diantar mais, por agora, o Nuno partiu de Banguecoque, com o ministro Mochtar no seu avião pessoal para Jacarta e dai partiria para Díli.
No dia do regresso de Nuno de Díli, via Hong Kong, foi recebida uma comunicação na Embaixada de Portugal que nessa noite chegava, mais uma vez a Banguecoque.
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Incumbiu-me o Encarregado de Negócios a.i., Dr. Paulo Rufino (Embaixador Mello-Gouveia de férias em Portugal) ir esperá-lo ao aeroporto.
Os jornalista vinha radiante pela reportagem e missão impossível e dizia-me: “é caixa, é caixa o meu trabalho”!
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Era a vitória de um jornalista, que não olha a perigos e a embates políticos que viria, depois, a receber e a até considerado um traidor!
Em fim ossos do ofício que um jornalista pode esperar e estes me chegaram a mim, como um humilde correspondente e gosto pelo jornalismo.
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O Tempo publicou todos os trabalhos de reportagem e entrevistou, em Díli o Governador Mário Carrascalão, o Administrado Apostólico Ximenes Belo, E adianta numa das páginas: “Em 30 de de Agosto, Almeida Santos, um dos grandes responsáveis pela desastrosa, e por vezes criminosas, descolonização portuguesa, tanto em Timor como em Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, deixa Jacarta a caminho da Austrália. 
 
A Austrália recusa envolver-se na questão de Timor, dizendo que esta respeita inteiramente a Portugal, único responsável pela situação existente. Almeida Santos, de regresso a Jacarta, diz que Portugal não suporta especialmente a Fretilin”. Não vou adiantar outros pormenores, que são muitos e verdades. Numa caixa imprimida no “Tempo” designa onde param os ex-dirigentes de Timor: Foto do recorte Ramos Horta.
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Foi o jornalista Nuno Rocha que meteu em mim o “bichinho” da informação que viria, passados quatros anos, a envolver-me na informação séria e nunca a falsa ou irreverente. Os meus primeiros trabalhos foram publicados na “Tribuna de Macau” e relativos ao caso de Timor-Leste pela simpatia e aliviar o sofrimento de um povo martirizado.
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Quase no final de Agosto de 1990, aparece na Embaixada de Portugal em Banguecoque, o primeiro refugiado timorense, Paulino Gama a solicitar um passaporte português e protegido pelo “Jesuit Refugee Service Ásia Pacific”.
Ao Paulino Gama foi-lhe solicitado, pelo então Vice-Cônsul José de Sousa, que escrevesse a sua biografia. Foi-lhe dada autorização de a bater numa máquina e dactilografou 9 páginas (que tenho nos meus arquivos) num português excelente. Natural de Laga-Baucau.
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O seu nome de revolucionário: “Moruk Ran Nakaly Lemoray Teky Timur”. Foi atendido como as normas habituais aos cidadãos portugueses, no consulado emitido um passaporte português e seguiu para Lisboa. Nada previa que pouco depois de passado 15 meses um trágico acontecimento viria a dar-se em Díli, no Cemitério de Santa Cruz onde foram mortos muitos timorenses inocentes.
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No principio do mês de Dezembro de 1991, entrou na chancelaria da Embaixada de Portugal em Banguecoque, um homem alto a pedir-me que desejava falar com o chefe-de-missão.
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Era mais nem menos o Max Stahl, o jornalista, que aninhado junto ao túmulo, filmou o massacre de quando os soldados indonésios assassinavam gente.
À minha frente tinha o jornalista (venham os heróis de onde venham) que contribuiu para sensibilizar a opinião mundial, ao serem exibidas, nos canais de televisão, as imagens.
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Ora o Max Stahl conseguiu que a cassete chegasse ao mundo por um canal que não mo revelou, mas ainda não tinha dado entrevista nenhuma a jornais e teria sido eu o privilegiado a conceder-me a primeira entrevista gravada e publicada em cinco páginas ma “Tribuna de Macau”.
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O motivo de Max Sthal de ir à embaixada foi o pedir assistência diplomática para que s fizesse chegar um trabalho seu à revista “Grande Reportagem” dirigida pelo jornalista Miguel de Sousa Tavares.
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De Lisboa e da redacção da revista, foi recebido um faxe, a solicitar assistência ao jornalista, que lhe foi concedida a autorização e eu tratei de expedir o material para Lisboa, via DHL, para o Miguel de Sousa Tavares.
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Max Sthal, seguia cheio de medo em Banguecoque, porque suspeitava que a polícia secreta da Indonésia lhe seguia-lhe o rasto desde Jacarta, dado que a exibição do filme, relacionado com o “massacre”, já era conhecido no mundo e irritado o Governo indonésio e fácil, prendê-lo na capital tailandesa ou mesmo abate-lo. Como acima o escrevi a Tailândia apoiava a Indonésia, e a imprensa de Banguecoque apenas noticiou o massacre em pequenas caixas e nenhum canal de televisão emitiu as imagens.
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A Tailândia, na altura, tinha igualmente problemas políticos para resolver e o acontecimento de Timor-Leste passou despercebido. Pedi uma entrevista ao Max Sthal, de princípio houve alguma recusa, dado que se tinha comprometido com a “Grande Reportagem” ser um exclusivo.
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Porém coloquei-o descansado, dado que a Tribuna de Macau só publicaria a sua entrevista depois de publicada a sua peça. De facto, assim não teria sido, dado que a diferença de mais 8 horas de Lisboa a Macau, foi publicada primeiro, em Macau.
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O jornalista amedrontado hospedava-se no hotel de 3 estrelas o “Tower Inn” que me era familiar levando-o lá, ao fim de sair da embaixada e depois, já ao cair da noite levei-o para minha casa, onde jantou comigo e gravou uma longa entrevista.
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Antes de chegar a minha casa, telefonei a minha mulher para abrir o portão de ferro e logo que o carros entrasse que os trancasse. O jornalista partiu, nunca mais o vi, mas sei que continuou em Timor e ainda hoje certamente por lá se encontra.
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Em Julho de 22 e 28 de 1994 ir-se-ia realizar uma Cimeira Ministerial da Asean, num hotel em Banguecoque. Uns dias antes José Ramos Horta, Mari Alkatiri e 11 membros da resistência timorense vieram à capital tailandesa cujo objectivo seria o juntarem-se a outros grupos de países da ASEAN, onde os direitos humanos eram violados.
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Entrou na chancelaria da embaixada um homem ainda novo, vestido de calças e casaco “jeans” com um saco. Perguntei-lhe à entrada da porta: “É o Dr. Ramos Horta”? Respondeu-me afirmativamente e logo ali nos apresentamos.
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Passado uma hora telefonou-me, de um hotel o Dr. Mari Alkatiri que pretendia saber onde se localizava a embaixada de Portugal. Não estava distante, apenas a pouco mais de 500 metros. Indiquei-lhe o caminho e passado uns minutos estava a entrar na chancelaria.
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Porém, desde logo, as polícia tailandesa passou a fazer-lhes caça e pretende colocá-los fora da Tailândia. O Embaixador Castello-Branco deu-lhes guarida, hospedou-os na residência e nunca mais a polícia os encontrou, tão-pouco os jornalistas.
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Desde logo eu fiquei encarregado de transmitir, em peças pelo telefone para a Rádio Renascença, a presença de Ramos Horta e Mari Alkatiri, sem nunca indicar o paradeiro em Banguecoque. Graças às minhas peças radiofónicas, a televisão de Macau (TDM) enviou uma jornalista e um operador de câmara, para reportar a presença dois líderes timorenses.
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A Adida Cultural, bem relacionada, com uma jornalista do “Bangkok Post” conseguiu reunir Ramos Horta e Mari Alkatiri com jornalistas de confiança, no seu apartamento, na avenida Sathorn. Ao outro dia o jornal publica na primeira página as fotografias dos dirigentes timorenses que foi uma caixa jornalística.
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Os jornais de Banguecoque dão mais atenção à presença de Ramos Horta e Mari Alkatiri que à Cimeira Ministerial da Ásia. Mas agora é necessário que Ramos Horta e Mari Alkatiri saiam da Tailândia. Uma conferência de imprensa estava agendada nas proximidades do aeroporto de Don Muang.
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O Embaixador Castello-Branco, incautamente, dispõe o carro da embaixada com a matrícula diplomática para transportar Ramos Horta e Mari Alkatiri ao local da conferência. No meu Volvo segui à frente, do Mercedes, com a jornalista e o operador de câmara da TDM. Ninguém sabia onde seria o local.
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A jornalista da TDM dava-me indicações (mais ou menos) e, deitei-me advinhar e guiei por entre caminhos margeados por campos de arroz e consegui descobrir o local, nua residência, onde acolhia mulheres maltratadas pelos maridos.
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Quando ali cheguei, uns 50 metros atrás de mim, vinha o Mercedes da Embaixada. Um batalhão de jornalistas. Logo que estacionei e abri a porta um grupo numeroso de jornalistas, fotógrafos, operadores de câmara vem até mim para colher imagens.
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Gritei-lhes: “not me, not me, the people do yours wanted to be back of me”. Em redor da residência havia policies trajando à civil, com câmaras de vídeo para filmar as pessoas que ali se encontravam. Ao fim da conferência, que que foi um sucesso, onde outros dirigentes dos países da Ásia se encontravam, das ONGs, terminando sem qualquer intervenção policial e foi livre.
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Dali partiu Ramos Horta e Mari Alkatiri para o aeroporto cujo o destino seria as Filipinas. A polícia esperava por eles, não para os deter, mas convidá-los a ocupar uma sala VIP do aeroporto e as palavras: “admiramos muito a vossa luta”.
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Passados dias o Embaixador Castello-Branco foi chamado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, tailandês e ali foi-lhe dito: “Senhor Embaixador não volte a fazer o que haja feito, porque as relações entre Portugal de 500 anos podem deteriorar-se”. O Mercedes da Embaixada de Portugal saiu a fotografia chapada num jornal, matutino, de Nova Iorque com Ramos Horta e Mari Alaktiri.
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Há muito para relatar, sobre a questão “Timor-Leste” ficam para um dia!
José Martins