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terça-feira, 21 de maio de 2013

Uma viagem ao Portugal depois da troika




Por Ana Suspiro
publicado em 21 Maio 2013 - 07:00
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Dinheiro
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Entre a chegada e a saída prevista da troika, desemprego cresce 61%, investimento afunda 28%, consumo cai 7%
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O Portugal pós-troika foi o menu oficial da reunião de ontem do Conselho de Estado. Tendo como guião principal as projecção do Documento de Estratégia Orçamental (DEO) 2013/ 2017, o i procurou fazer uma viagem em números entre o Portugal de 2010, o último ano antes do resgate financeiro, e o país de 2014, quando se espera que termine o programa de ajuda financeira.
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Para este percurso escolhemos indicadores da economia e das finanças públicas. Considerando que o descontrolo financeiro do Estado foi o principal factor a motivar a intervenção externa, começamos por olhar para a evolução do défice público, que baixou cerca de 62% entre 2010 e a previsão para 2014. 
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São menos 10 mil milhões de euros em números redondos e uma redução de 9,8% do PIB (produto interno bruto) para 4% da riqueza prevista para o ano de 2014. Mas o preço a pagar por esta diminuição, que ainda não assegura o cumprimento da meta europeia de 3% do PIB, foi muito alto. Um dos preços mais elevados foi pago pelos desempregados. 
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No final de 2010 eram cerca de 620 mil, o que correspondia a 11,1% da população activa. Estes números saltam para 18,5% em 2014, com o número de desempregados a atingir a barreira psicológica de um milhão de pessoas. Uma previsão negra que muitos acreditam que será alcançada ainda antes do adeus da troika.
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Um dos indicadores que ajudam a perceber este saldo é o investimento, que afunda mais de 28% entre o valor de 2010 e a previsão para 2014. Em termos acumulados, a queda é de quase 10 mil milhões de euros. 
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Outra variável com trajectória negativa, embora menos acentuada, é o consumo privado. Em quatro anos encolhe 6,7%. Esta evolução contribuiu para um outro saldo, esse com sinal positivo, que é a queda muito acentuada, quase de 100%, no saldo negativo das contas externas, o que resulta depois de contabilizadas as exportações e importações.
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Só que esse é quase o único aspecto da economia nacional que correu bem. Já a riqueza produzida, o PIB, caiu 5,8% entre 2010 e o valor previsto para o próximo ano. 2014 deveria ser o ano da retoma, com um crescimento de 0,6%. No entanto, há muita desconfiança em relação à previsão do fim da crise no próximo ano, dado o efeito recessivo da reforma do Estado, que assenta no corte adicional de 4700 mil milhões de euros na despesa pública.
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A comparação entre 2010 e 2014 traz ainda mais diferenças quando nos centramos no Estado. Para o défice público encolher mais de metade neste período foi necessário conjugar dois efeitos: o ?enorme aumento de impostos? com um
emagrecimento do aparelho público. No primeiro caso, e muito por culpa da recessão, as receitas fiscais cresceram ?apenas? 2,5% entre 2010 e 2014. 
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O que também cresceu, mas de forma mais acentuada, foi a despesa com juros, que subiu quase 50% entre 2010 e 2014. Esta tendência reflecte o agravamento dos custos do financiamento do Estado, mas sobretudo o aumento de 24% da dimensão da dívida pública.
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Estado reduz consumo e salários
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Sem margem para mexer na despesa com juros, o governo centra os esforços de consolidação orçamental em outras rubricas. O consumo público foi o maior alvo, sofrendo uma queda de 25% entre 2010 e a estimativa para 2014. Logo a seguir, com uma descida de 24%, vem a despesa pública com salários. 
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A dimensão desta queda ainda é influenciada pelo último aumento salarial na função pública - 2,9% em 2009, e combina duas receitas: cortes nos salários e redução do número de trabalhadores no Estado.
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Mais moderada é a descida prevista com a factura das prestações sociais: menos 2,6% entre o último ano sem troika e 2014. A travar uma queda desta rubrica está o forte acréscimo da despesa com o subsídio de desemprego e outros subsídios para rendimentos mais baixos. 
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O aumento destas prestações será contudo neutralizado pelos cortes previstos nas pensões e que irão penalizar mais os reformados do Estado.