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domingo, 9 de junho de 2013

DIA DE PORTUGAL, DE CAMÕES E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

Neste dia tão importante, para nós portugueses, dedico à memória de Fernão Mendes Pinto a história a seguir e escrita há 7 anos.
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Chamaram-lhe mentiroso depois de ter deixado de pertencer ao número dos vivos e de quando a sua obra a "Peregrinação" foi publicada depois de passados 30 anos após a sua morte.
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Partiu de Lisboa em procura da aventura e fortuna no Oriente, em 1537, com a idade de 26 anos (alguns historiadores designam a data de 28 anos). Regressou à Pátria com os mesmos bens que tinha levado consigo. Porém com êle veio uma riqueza de conhecimentos, sobre a Ásia, que outro português do seu tempo trouxera para Portugal.   Quase no final de sua vida e pelos bons serviços que prestara à Pátria Portuguesa o Rei Filipe II de Espanha, ouvindo os apelos dos padres italianos João Pedro Maffel e Gaspar da Cruz, Reitor do Colégio de Santo Antão, concedeu-lhe uma tença anual de dois moios de trigo enquanto fosse vivo. Tença que demorou 25 anos até ser atendida! Ainda nesse ano a 8 de Julho Pinto deixou a vida terrena.
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Ninguém melhor que Fernão Mendes Pinto descreveu, até hoje, as terras por onde andou, desde a costa oriental de África, Índia, Pegú, Samatra, Reino do Sião, Cambodja, China e Japão. Pinto tudo foi nessas viagens transbordantes de aventuras: Caminhante, cronista, soldado da fortuna, pirata, irmão jesuita e o primeiro embaixador de Portugal no Japão. Hoje era rico, no outro dia um Jó! Por onde vai passando encerra na sua privilegiada memória o que observa: a fauna, usos e costumes dos povos, tormentas dos oceanos a que a estas esteve sujeito, naufragando por várias vezes.
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João de Barros, o cronista que escreveu as "Décadas da Ásia" serviu-se de informações de Pinto sobre o Japão, assim como o confessou, claramente, o italiano Giovani Botero na sua obra "Relações Universais", publicada em Roma em 1592. Já velho, cansado e desiludido do mundo, Fernão Mendes Pinto, sentado junto à margem do Tejo "roidinho de saudades" aguardava a chegava das caravelas vindas do Oriente. Quer saber coisas do que se vai passando na Ásia.
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Era o feitiço da nostalgia oriental a tormentar-lhe a mente no fim de sua vida. Pinto quando começou a escrever a sua "Peregrinação", não teve qualquer desejo ou ambição de os relatos serem publicados. Poderemos, também, chegar à conclusão que o escritor escreve a obra com o "credo" no pensamento e o terror de ser levado ao Tribunal do Santo Ofício da Inquisição que imperou, como veículo de repressão, durante séculos e atingiu várias gerações de portugueses.
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Porém Pinto ao principiar a "Peregrinação" diz que a obra era dedicada a seus filhos:
"Pois me quiz (Deus) conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura, que por herança deixo aos meus filhos (porque só para eles é a minha tencão escrevê-la), para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que passei no decurso de 21 anos". Terminou este testamento de família e morre cinco anos depois.
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Passados 30 anos a obra foi publicada e, quantos teriam sido os cortes feitos pela serrilha da foice, severa, do inquisidor-mor, antes de ser conhecida do público. Assassinado um relato, impressionante, daquilo que Pinto viu e ouviu, nunca escrito por cronistas seiscentistas portugueses ou estrangeiros.
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Conheceu no Oriente Francisco Xavier, foram amigos e emprestou-lhe dinheiro para que o "Apóstolo das Índia" construísse a primeira igreja no Japão. Fernão Mendes Pinto foi irmão jesuita. Mais tarde expulso da congregação fundada por Inácio de Loiola, cujo afastamento jamais teria sido aclarado. Aventaram a hipótese de que Pinto era "marrano" (1), ou, talvez, pelos "prazeres carnais", que certamente teria tido (o que não duvidamos), durante suas aventuras orientais. Pinto ao escrever a "Peregrinação" usa a prudência em não designar suas aventuras amorosas.
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Entende-se que o cronista não quer chocar a família dando-lhe conhecimento das paixões amorosas e exóticas que teria tido na Ásia, cujo nestas, como Pinto, estiveram envolvidos: Luis de Camões; o escritor Venceslau de Morais; o poeta Camilo Pessanha e muitos outros, anónimos, e entre os quais o autor deste artigo. Pinto foi ferido pela seta do "Cupido" na ilha da espingarda, Tenagashima, no Japão.   A lenda ficou por lá até aos dias de hoje.
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Todos os anos, nos festejos anuais realizados naquela ilha em honra da espingarda portuguesa, e que tudo leva a crer que foi Pinto que a introduziu na ilha após ali ter chegado nos anos de 1543 e teria sido (não oficialmente) credenciado como o primeiro embaixador de Portugal no Japão. A festa é dedicada, com todas as honras, a Portugal. Há disparos da espingardaria lusa do século XVI, quando ainda o disparo da bala não era accionado pelo gatilho, mas incendiada a pólvora com o morrão da mecha de algodão.
Pelas ruas de Tanegashima, uma caravela com as velas de Cristo, percorre as principais ruas. Uma multidão, entusiasmada, dá largas à alegria. No convés marinheiros portugueses trajados com fardas da época e o Fernão Mendes Pinto, todo garboso, na proa. Na ré a sua amada nipónica de longos cabelos, pretos, a flutuar no vento. Pinto partiu em busca de outras paragens e prometeu à sua amada - reza a lenda - já com um filho seu nos braços, que voltaria... nunca mais regressaria a Tenagashima e foi então que surge " o poema da verdadeira paixão que fascinou as duas culturas" (2) a japonezinha de cabelos negros e compridos e de olhos amendoados, todos os dias, em cima de uma rocha olha o horizonte do mar para o ocidente, na esperança do regresso do seu amado, Pinto, ao aconchego de seu seio.
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Francisco Xavier morreu na Ilha de Sanchoão, na China, a cinquenta milhas de Macau. O apóstolo tomou base na ilha, local de marginais e piratas, na esperança de, um dia, penetrar na China e propagar o cristianismo. Nunca o conseguiu e morreu em 1552. O corpo de Francisco Xavier foi levado de barco para Malaca e dali para Goa, onde repousam suas osssadas. Fernão Mendes Pinto de tantas tormentosas aventuras na Ásia, estava em Goa e com o propósito de regressar a Portugal. Relata, assim, a chegada dos restos mortais de Francisco Xavier:
"Em nesse tempo o Padre Mestre Belchior determinou de ir numa fusta que o senhor viso-rey lhe deu, a buscar o corpo do Padre Mestre Francisco, que trazia hum irmão de Malaca, numa nao, a pola amizade passada que com elle tive, offerecy-me ao padre para ir com elle, como fui, e assi levou consigo três irmãos e 4 mininos da doutrina e a mim só, sem outro de fora. Andamos polo mar 4 dias com suas noutes, em busca e achamos a nao junto de Baticala, 20 légoas de Goa.....(3).
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A fortuna não bafejou Pinto na terra do sol nascente e escreveu:
"....nas partes da China e Japão, e sempre me ocupey em aiuntar bens da terra que erão os que eu pretendia: somente em Japão, todalas vezes que lá fui ou mandey, acertei sempre perder; estando sempre penando nisto, queixando-me quam pouco ditoso fora em aquella terra, determineis de nunca tornar a ella, pois que todo me sucedia tão mal, e estando nisto, comecei a cuidar que, se tornasse, que me podia restaurar; acordando-me para confirmação do que me podia Deos ajudar, pois como ho dinheiro que eu tinha em Japão emprestado ao Padre Francisco, se ouve feito a igreja e casa da Companhia...." (3)
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Poderá aqui entender-se que Pinto, neste seu relato de Malaca, em 1555, quando foi para Goa para embarcar para Portugal, as suas economias não estavam decadentes. Mas foi a Goa, talvez, para recuperar o empréstimo feito a Francisco Xavier no Japão. Em Goa teve conhecimento que Xavier tinha morrido e o seu corpo vinha de Malaca para Goa. Na mesma carta, mas adiante, escreve:
"..... E com esta determinação, cheguey a Goa, esperando as naos do reino para me partir logo, parecendo-me que minha glória e felicidade estava a entrar em Montemor com nove ou dez mil cruzados, e que com hum homem não roubasse os cális ou custódia da igreja, ou fosse mouro, que por nenhuma outra via se podia temer o inferno, e que bastava ser christão e que a misiricórdia de Deos era grande. (3)
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As cerimónias fúnebres de Goa em honra de Xavier foram imponentes e com elas se aproveitam os jesuitas da propagação da fé. É então que Pinto influenciado pelo grande cerimonial foi aliciado pelos missionários e consagrou-se à ordem como irmão. Sabem os jesuitas que Pinto é uma figura com enormes conhecimentos da Ásia e, além de se aproveitarem da sua generosidade; ele é necessário para que os jesuitas o enviem, como mensageiro, a terras onde eles ainda não tinham chegado com a cruz. Com isto, também, o ter sido despojado das suas economias, grangeadas sabe Deus como...
José Feliciano de Castilho diz-nos:
"Acharam na Índia um homem aproveitável, por seu talento, sua influência, suas relações e suas riquezas: lançaram-lhe o arpéu. Chamaram-no ao confessionário, entregaram-no a direcção do mais hábil, preparam cenas de efeito, surpreenderam-lhe os votos, apoderaram-se da riqueza, negociaram com as suas virtudes e, seu exemplo, levantaram-no ao sétimo céu. Amaldicionado pela sua saída, conjugaram esforços contra o desgraçado (...); já o perseguem em Goa, a ponto de o constranger a fugir dali; já o enredam com o governo de Portugal, de modo que não recebam renumerações os seus serviços; já impoem os seus escritores sepulcral silêncio acerca de tão notável homem; já fazem espalhar as vozes mas desfavoráveis para o seu crédito; já enfim cometem, para prejudicá-lo, às mais vergonhosas falsificações".
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No século XVI, pouco depois da sua obra ter sido publicada, o povo português estava habituado: a ver para crer e não aceita ou dá crédito as narrações; daquilo que Pinto dá conta do que tinha visto na Ásia e desde logo inventam: "Fernão, Mentes? Minto" Tem sido esta a ligação entre Pinto e a sua obra a "Peregrinação", ainda muito pouco conhecida a grandeza deste livro, pelos portugueses, que infelizmente:
" E o escritor é posto, assim, no rol dos aldrabões, que falam muito mas não dizem nada, uma espécie de vendilhões a tentar vender a sua banha da cobra, que ninguém está interessado em lhe comprar" (4).
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Sobre a vida e obra de Fernão Mendes Pinto, poder-se-iam, em sua análise, escrever muitos milhares de páginas, em cima de tanto que viu e passou no Oriente.
Voltarei ao assunto.
José Martins
(1) Descendente de família judia ou cristão novo;
(2) Avelino Rodrigues "Japão Mendes e Macau" revista Macau;
(3) Carta do Irmão Fernão Mendes Pinto para os padres e irmãos de Portugal, Malaca, 5 de Dezembro de 1554. Documento existente na Biblioteca da Ajuda de Lisboa, 49-IV-49.Fls 186 v.-190 r (1) e publicada no volume 5 "Documentação para a História das Missões do Padroado Português do Oriente"", por António da Silva Rego em 1951.
(4) "Fernão Mendes Pinto - O outro lado do Mito -" de Maria Teresa Vale em 1985.