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sábado, 22 de junho de 2013

EM 1997 EU ESCREVI ASSIM SOBRE O PORTO


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O PORTO DA MINHA INFÂNCIA
Por: José Martins
Já não leio o Jornal de Notícias há vários anos. Foi entretanto o jornal que me habituei a ler, diáriamente, nos meus verdes anos, quando comecei a minha profissão de marçano, no então (igualzinho), Porto de Camilo.
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Era o Porto das zorras barulhentas que de S.Pedro da Cova transportavam carvão para alimentar a central térmica de Massarelos. A fonte de energia para locomover os amarelos que garbosamente subiam a 31 de Janeiro, os Clérigos, Sá da Bandeira em procura dos arrabaldes do Porto..
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Um Porto cem por cento tripeiro!
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Na Estação de S. Bento havia carrejões ladinos de capuzes de serapilheira, almofadados, carregando arrobas e mais arrobas, no costelado, para as mercearias do Bonjardim,Flores e Sá da Bandeira.
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Chegava todos os dias a S.Bento gente da Régua, Amarante e sei lá de mais de onde. Trazia com ela cestos de vime colorido. Dentro deles, um presentito do seu lavrado para oferecer a algum amigo ou pessoa de família. Encostados às grades, de costas voltadas para a Praça de Almeida Garrett os habituais e inofensivos mãozinha leves, que a espreitavam, seguindo-lhes depois os passos para ensaiarem a venda do vigéssimo premiado, branco como a cal, o anel de ouro falso como Judas ou surripiar-lhe a carteira no meio da barafunda na escalada para o amarelo.
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Juntas de bois jungidos à canga,pintada de várias cores e com arte entalhados desenhos rurais, subiam a S.João puxando ronceiros carros de rodas fabricadas de madeira de freixo,carregando as mercerias,bacalhau e caixas de sabão dos armazéns da Ribeira para as bandas de Ramalde,Areosa e para o concelho de Gaia.
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O Porto do meu tempo era mesmo um Porto a valer!
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Nunca arriámos aos alfacinhas. O tripeiro raramente bebia um galão de café com leite e um bolo de arroz, enquanto uns más língua afirmavam a pés juntos, que em Lisboa a moda corrente do lisboeta, ao almoço, era atestar meio estômago com um bolinho e uma meia de leite na pastelaria da esquina.
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As tascas de Cimo de Vila,dos Congregados,Caldeireiros e da Cordoaria sempre foram centros de cultura. Ali discutia-se de tudo um pouco. 
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Era o último jogo da bola do Porto, as habilidades futebolisticas do falecido Artur de Sousa, o Pinga, mais tarde as defesas do guarda redes Barrigana, do brasileiro Jabaru e do treinador,também brasileiro Yustrich. (Este andava de noite à procura dos jogadores, pelas tascas da Alferes Malheiro e quando os topava já meio pingados do verdinho,meu verdinho, sem cerimónias acertava-lhe dois tabefes na cara).
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Os jogadores, nessa altura,entravam em campo quase por amor à camisola.
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Corrupção, ninguém,mesmo ninguém conhecia sequer a palavra!
Presentear um árbitro com uma viagem ao estrangeiro?
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Nunca, tão pouco um lugar na camioneta de carreira, no passeio anual de um grupo de 20 amigos que se quotizaram,durante um ano, a vinte e cinco tostões por semana.
Um Porto despolitizado!
Não conhecia politícos bons ou maus!
Quando o General Sem Medo (Humberto Delgado) foi ao Porto houve chanfalhada de criar bicho da Polícia a torto e a direito, fazendo as delícias da miudagem, a correr em direcção às vielas para se livrarem do cassetete do "sô polícia".
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Com os polícias tudo bem... o pior acontecia na esquina da Rua do Heroismo,junto ao Cemitério Prado Repouso, onde os Pides ajustavam contas com os camaradas da época ou com o respeitável democrata que teimavam em desalojar Salazar do "poleiro" de São Bento.
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O Porto da minha infância era um burgo girissímo!
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Havia verdura,lagos,cisnes nos jardins da Cordoaria, do Marquês, de São Lázaro, da Arca de Àgua e do Palácio de Cristal. Criadas de servir,conhecidas por sopeiras, de faces coradas e aventais broncos, esmeradamente passados a ferro, passeavam aos pares pelas alamedas desses retiros espitituais do Domingo. Magalas dos quarteis arrastavam a asa a essas beldades, ainda puras, decorando as palavras que depois na investida da promessa de amor eterno, conforme a coragem lhes iam dizendo.
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Os jovens eram timidos na procura do amor.... Amor sem luta é comida ensossa.
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Amor a granel? Ah, esse era para os lados da Rua Escura, dos Pelames, da Bainharia, no Bem me Queres, junto ao barracão, na altura, da Estação da Trindade.
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Nunca entendi porque o Porto foi sempre tão bairrista... nem os vizinhos poupava. Dizia-se que " valia mais uma rua do Porto do que ca-Gaia-toda".
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Gaia que se mirava da margem ribeirinha, que envelhecia nos armazéns na margem do Rio Douro o generoso Vinho do Porto que constantemente os barcos rabelos o traziam pelo Douro abaixo.
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Gaia que ainda tinha a Serra do Pilar virgem e um planalto onde a miudagem ia jogar a bola de trapos. 
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Em baixo a praia do "Borras",junto à Capela do Senhor de Além era a piscina dos miúdos e graúdos onde ao Domingo iam tomar banho. O velho Duque, barqueiro estacionado na Ribeira, no outro lado do rio,de quando em quando era solicitado para piedosamente retirar das profundezas do Douro o corpo, sem vida, do incauto que se aventurou nadar mais além da margem.
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Da Vila de Gaia, centenas de operários, ainda o dia não tinha aclarado, desciam vertiginosamente montados em bicicletas a Avenida da República para trabalharem nas obras da cidade.
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Na minha mente ainda se conserva a imagem típica do Machado "aldrabão" a vender a Pomada Santa de Giboia na Cancela Velha, um pouco acima do velho Jornal de Notícias. A Banha de réptil curava todas as mazelas e aliviava as dores.
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Bem, não nasci no Porto,sou serrano de origem e do sopé da Serra da Estrêla.
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O Porto da Minha Infância, foi amor à primeira vista e marcou para sempre a minha existência.

P.S. Artigo publicado na página da Internet "Porta dos Talentos" do Jornal de Notícias e em 1 de Janeiro de 1997 na última página do mesmo diário, do Porto, com a gravura agora,também, inserida.