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terça-feira, 25 de junho de 2013

João Salgueiro apela à união dos reformados contra o governo

Por Margarida Bon de Sousa
publicado em 25 Jun 2013 - 05:00
 
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Economista diz que o Estado está a quebrar contratos que firmou com portugueses e admite recurso até para tribunais internacionais
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João Salgueiro defende que, se a sociedade civil não desencadear um processo vencedor em termos de competitividade, Portugal não tem saída para a crise. Mais. Também diz que é contraditório o Estado estar a quebrar contratos que firmou com os portugueses, como é o caso dos pensionistas, e em simultâneo tentar contratualizar investimento produtivo cá e no estrangeiro. E apela à união de todos os que se sentem lesados para lutarem pelos seus direitos, com recurso aos tribunais internacionais se tal se mostrar necessário. "Não há outros contratos que estão a ser mantidos apesar dos prejuízos que provocam ao país?", interrogou-se.
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A intervenção do ex-ministro foi feita durante uma conferência organizada pelo CIDSENIOR - Movimento para a Cidadania Senior -, em que participaram igualmente Manuela Ferreira Leite e Emanuel dos Santos, antigo secretário-adjunto e do Orçamento dos dois governos Sócrates, entre outros.
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Num tom que não lhe é habitual, Salgueiro defendeu que os problemas do país não se resolvem porque os políticos ficam reféns das suas promessas eleitorais e quando chegam ao poder não conseguem pôr em prática as medidas necessárias para reformar o país.
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"Há um problema de cultura em Portugal", disse. "A publicidade faz o mesmo: promete às pessoas benefícios imaginários. Na política ainda não se gasta tanto, mas o raciocínio é o mesmo. E a sorte dos reformados está ligada à sorte do país."
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O também antigo presidente da Associação Portuguesa de Bancos apelou a que outros grupos se juntem ao recém-formado Movimento para a Cidania Sénior a fim de que lutem e defendam uma estratégia de competitividade e crescimento, mas num enquadramento em que haja uma garantia de cumprimento dos contratos transversal a todas as situações.
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Guerra geracional 
A ex-ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite também se distanciou forte e feio do governo formado pelo partido que integra, acusando-o de estar a querer confundir os portugueses com a necessidade de reformar o sistema da segurança social e os cortes cegos que têm estado a ser feitos nestes apoios. "Estamos a misturar dois problemas", defendeu. "Uma coisa é a sustentabilidade do sistema, que toda a vida foi discutido e em que tem de ser feito mais um ajustamento devido ao facto de a população estar a diminuir e a esperança de vida estar a aumentar. Mas a situação actual é diferente, tem a ver com as finanças públicas e o ajustamento que estamos a fazer. E avança-se com este argumento para cortar onde há dinheiro."
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Ferreira Leite acrescenta que se está a utilizar a Segurança Social para tapar os buracos que existem um pouco por todo o lado: nas PPP, nas empresas públicas, nas autarquias, nas empresas municipais, nos desperdícios, nas fraudes ou nas decisões mal tomadas.
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"Quando analisamos os problemas das contas públicas", recorda, "nunca foi a Segurança Social a causar problemas. Antes pelo contrário. Foi a única parcela que nunca apresentou défices, ao contrário das restantes, como os fundos autónomos ou as autarquias."
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Mas o que choca verdadeiramente a ex--governante é o discurso oficial estar a provocar uma guerra geracional. "Devo dizer que estou disponível para aceitar a discriminação absurda dos cortes que afecta um sector e não o outro. Mas não aceito pelos motivos que estão a ser invocados, que dividem as gerações, e deixam implícita a ideia de que os reformados têm benefícios para os quais nunca descontaram. E que as vítimas são as novas gerações. É um discurso do ponto de vista dos valores absolutamente condenável, atribuindo aos antigos uma passagem por aqui absolutamente inútil."

Favorável às 40 horas 
 Mais fleumático esteve o ex-secretário adjunto e do Orçamento de Sócrates. Emanuel dos Santos concorda com o aumento da carga horária para as 40 horas na função pública e com a aproximação entre as pensões pagas pelo Estado e as que são da responsabilidade da Segurança Social, "sobretudo através das regras de cálculo, que devem ser as mesmas". O ex-governante também se definiu como defensor de melhores serviços públicos e menos Estado. Quanto à crise que o país atravessa, e que está a provocar um corte radical nos direitos adquiridos, Emanuel dos Santos defende que ela foi causada por factores endógenos à Europa e foi resultado sobretudo do mau funcionamento dos mercados financeiros.