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segunda-feira, 29 de julho de 2013

Álvaro: o inocente que revelou palhaços





O pobre do Álvaro não merecia o tratamento que lhe deram. Era a única pessoa deste maldito regime por quem eu, de facto, ainda tinha respeito.

Mas que se há-de fazer na pelintrice portuguesa?

Ainda ontem um amigo meu economista me dizia que acredita que Portugal é um país económicamente irreformável por motivos culturais e que agora será apenas uma questão de tempo até sermos aniquilados como nação independente.

O facto é que somando todos os dados e olhando-se sob o ponto de vista que quiserem, este país não tem futuro e dizer isto não é ser pessimista, mas realista.

Os portugueses não querem mudar e quando um povo se recusa a mudar, acaba aniquilado, é tão simples quanto isto.

Texto de um leitor deste blogue.

Álvaro: o inocente que revelou palhaços


Henrique Raposo
 Sexta feira, 26 de julho de 2013

 
A atmosfera que rodeou Álvaro Santos Pereira merecia um estudo de caso. De forma inconsciente, o ex-ministro conseguiu a proeza de atrair contra si um conjunto de vícios que caracterizam bem as elites da ditosa pátria. Comecemos pelo mais evidente: a snobeira. 

Quando pediu para ser tratado por "Álvaro", este homem cometeu o maior dos pecados no país dos doutores, retirou a importância aos cargos e títulos para grande irritação da porcelana que exige ser tratada por "V. Exa." Pior: ao cheirar esta inocência tão americana, os cínicos profissionais de Lisboa atacaram como uma alcateia de hienas gozonas. Que ganda totó, pá.

Nestas cabeças provincianas que se julgam moderninhas, Álvaro não procurou introduzir em Portugal um trato pessoal simples e até igualitário no sentido americano. Nada disso. Ele apenas mostrou que é um totó, um fraco, um saco de boxe.

E assim foi: uma multidão de palhaços pomposos passou dois anos a socar o totó que veio do Canadá, esse sítio atrasado onde as pessoas, vejam bem, só são tratadas pelo nome próprio.  

Além da snobeira, a inocência de Álvaro desafiou a ética almoçarista que rege a pátria. É no circuito almoçarista que se decidem as prebendas, numa espécie de contrabando de intrigas, boatos e boutades.

Sim, é verdade que este professor das Américas não conhecia o país (os gráficos não são o país) e, por essa razão, nunca devia ter sido ministro da economia. Mas Álvaro não foi passado a ferro por causa disso.

O ministro-sempre-a-prazo foi desprezado porque descurou a Lisboa do almocinho, da palmadinha, do empurrãozinho, ó Álvaro, dê lá um jeitinho naquela cena que a gente sabe, ah?
Mas a sua maior blasfémia terá sido outra: Álvaro nunca falou com acidez e quis dizer coisas positivas sobre Portugal. Imperdoável, de facto.

Numa conferência, Álvaro afirmou, e bem, que os portugueses deviam ter orgulho nos seus produtos, porque esse orgulho é fundamental na hora das exportações. A título de mero exemplo, o pastel de nata surgiu nesse raciocínio.

Com a previsibilidade das cadelinhas de Pavlov, o cinismo queirosiano reagiu de imediato e o exemplo transformou-se numa caricatura desonesta. Como é que ele se atreve a dizer coisas positivas sobre Portugal? Não sabe ele que Portugal é uma trampa? Exportar pastéis de nata?, que ideia parola. 

Desta forma, a caricatura do pastel reduziu um homem bem-intencionado à figura de palhaço nacional. Dias depois, descobriu-se que um sujeito já tinha transformado o pastel de nata numa espécie de donut que faz as delícias dos chineses e, agora, uma série de empresas portuguesas está mesmo a tratar da exportação do pastel de nata. Quem é o palhaço? 

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