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quinta-feira, 18 de julho de 2013

Quando o PCP grandolava Zeca Afonso e a minha mãe



 
Henrique Raposo


Esta reportagem de Vítor Matos sobre Grândola, a vila e a música,  mexeu comigo, sim, mexeu comigo no sentido telenovoleiro do termo. 
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Rebobinou memórias, tocou em nervos, sublevou os pelinhos da epiderme. O PCP, o comunismo, o PREC, o sindicalismo não são assuntos abstractos na minha pobre e vil cabeça. São assuntos pessoais, epidérmicos, biográficos, familiares. 
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O meu avô foi comunista onde elas doíam (Alentejo antes do 25 de Abril), a minha mãe foi sindicalista durante o PREC, estou desconfiado de que tenho um tio candidato pela CDU a uma junta de Loures, etc. 
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E se o Vítor Matos nasceu em Grândola , eu nasci e cresci numa Grândola com marquises: Santa Iria da Azóia (ou lá perto). Sim, ao abordar a história revolucionária do país, este belíssimo texto  abalroou a minha memória.
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A estória da peça mostra bem o traço central da história do PCP: o sectarismo e o ódio contra aqueles que não estão dentro da seita. Nas eleições presidenciais de 1976, Zeca Afonso não apoiou o candidato do PCP (Octávio Pato), mas sim Otelo Saraiva de Carvalho. 
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Além disso, Zeca Afonso estava próximo da LUAR, uma organização de extrema-esquerda fora da órbita moscovita do PCP. Com a previsibilidade das cadelinhas de Pavlov, os cunhalistas passaram a considerar Zeca Afonso persona non grata. Resultado? 
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Quando foi a Grândola dar um concerto, o cantor foi apupado por grupos de comunistas e, muito simplesmente, não conseguiu terminar a Grândola Vila Morena. 
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De forma organizada ou espontânea (aposto na primeira hipótese, porque nada é espontâneo no PCP), o PCs lançaram uma grandolada contra Zeca Afonso, apelidando-o de "esquerdista". 
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Convém recordar que, na terminologia comunista, "esquerdista" é quase tão mau como "fascista". Se o "fascista" é o infiel, o "esquerdista" é o blasfemo. O ódio, esse, é igual.
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Entre outras coisas, esta estória magnífica fez-me lembrar o ódio que as PCs lançaram sobre a minha mãe, operária da tal cintura industrial de Lisboa, essa coisa que os queques revolucionários só conheciam na teoria. Perante grandoladas mui tolerantes das moscovitas, a minha mãe abalou, deixou aquele sindicalismo. 
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Não aturou mais aquela seita, uma seita que via fascismo numa minissaia  e que vislumbrava uma "inimiga da classe" na operária que fazia a pergunta óbvia: "pois, isto é tudo muito giro, mas não temos de entregar encomendas para manter a fábrica a funcionar?" 
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Nunca precisei de ler nada para perceber que o comunismo é peçonha. Mas, se calhar, está na altura de passar por Grândola, até porque já deve ter uma ou outra marquise.

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