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sábado, 3 de agosto de 2013

Veja aqui o vídeo sobre a Gorongosa feito pela equipa da Globo Repórter (Brasil)


LINK para vídeo: Globo Repórter visitou a Gorongosa 

Projeto devolve vida a parque devastado pela guerra civil e pela ação de caçadores em Moçambique

O Parque de Gorongosa já foi considerado um dos melhores locais da África para a observação de animais selvagens. Recebia até 20 mil visitantes por ano.

Eles até parecem mansos. Brincam uns com os outros. E não dão a menor bola para a presença da equipe do Globo Repórter. Seriam gatos tamanho família? Não é bem assim. São leões selvagens. A equipe do programa encontra um bando descansando às margens do Lago Urema, no Parque Nacional de Gorongosa, região central de Moçambique.
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Um macho, duas fêmeas e cinco filhotes. Era fim de tarde e o grupo despertava para as caçadas noturnas.
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É descansando, na maior preguiça, que os leões passam a maior parte do dia. Só à noite que eles estão ativos, pra caçar. A orientação é de que próximo aos leões, a equipe se movimente com muita cautela, fale baixo, até para evitar qualquer movimento brusco mesmo. De acordo com os administradores do parque, devem existir de 30 a 40 leões no local.
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Com um pouco de sorte, os turistas podem ficar cara a cara com os leões. Em uma área, é proibido sair dos carros. Mesmo saciados, os leões são oportunistas e, num instante, podem se tornar caçadores mortais.
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E, para eles, o Parque de Gorongosa é uma despensa abarrotada de comida. Os inhacosos são os antílopes em maior número no parque. Robustos e elegantes, eles existem aos milhares, pastando nas planícies.
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Há ainda os graciosos impalas, também muito comuns na área. E os pequenos e ariscos oribís. Os javalis não são exatamente simpáticos. Dois deles interrompem uma briga e saem em disparada quando o carro da equipe se aproxima.
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Os macacos-cão, em bandos, despencam das palmeiras ao longo do caminho para se esconder no meio da mata. Esta espécie de macaco é associada ao cachorro porque emite um som parecido com um latido. Eles gostam de se alimentar de uma fruta parecida com o tamarindo e ficam espalhados pelas estradinhas que cortam o parque.
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Até onde a vista enxerga, você vê bicho. A área parece ser dominada pelos antílopes. O pessoal do parque informa que no local, seis anos atrás, era tudo vazio, não se via um animal. E essa recuperação, agora, é visível.
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O Parque de Gorongosa já foi considerado um dos melhores locais da África para a observação de animais selvagens. Recebia até 20 mil visitantes por ano. Mas a guerra civil, que foi de 1981 a 1992, e a ação de caçadores aniquilaram mais de 90% dos animais.
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Um prédio que está em ruínas foi construído há 43 anos. Lá funcionavam um bar e um restaurante, parada obrigatória dos turistas. Foi destruído na década de 1980 durante a guerra civil, mas o velho mirante é, ainda hoje, um dos mais belos pontos de observação de Gorongosa. De lá pode-se avistar o Lago Urema e também uma grande extensão do parque.
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Gorongosa tem quatro mil quilômetros quadrados de extensão. Tamanho duas vezes maior que o do Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná. Em 2007, a reserva começou a ser repovoada com animais selvagens.
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A estratégia faz parte de um acordo entre o governo de Moçambique e uma organização norte-americana sem fins lucrativos.
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O português Vasco Galante, diretor de comunicação de Gorongosa, está por lá desde o início deste projeto. Ele explica que a idéia é recuperar a fauna e conscientizar os moradores do entorno de que o turismo pode render mais lucro e empregos do que a caça dos animais.
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“Passa por coisas muito simples, como explicar que se nós matarmos um leão e comermos a carne do leão, pronto, nesse dia ficamos saciados, mas, no dia seguinte, já não há leão. Se o leão estiver vivo e puder ser visto por turistas, eles, todos os dias vêm ver o leão e pagam pra isso”, diz.
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A equipe do programa parte em busca do maior animal de Gorongosa: o elefante. Estima-se que pelo menos 300 vivam no parque. Pelo caminho, muitos obstáculos. A trilha estava bloqueada por causa de uma árvore quebrada. “Isso é sinal de que passou pelo menos um elefante, talvez uma pequena manada. Aqui vemos o impacto que os elefantes podem ter na mata”, explica Vasco.
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Mais galhos quebrados e outras árvores caídas indicam que estamos no caminho certo. E é sacolejando que a equipe vai seguindo pelas trilhas do parque. São 150 quilômetros de trilhas que levam a todos os caminhos para ver os bichos. E a equipe só conseguiu passar por estes caminhos porque é um período de seca. De dezembro a fevereiro, o período das enchentes, tudo fica alagado. Nenhuma trilha fica exposta.
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Neste início de inverno, a vegetação começa a trocar os tons de verde pelo dourado. Os lagos, minguando lentamente, concentram uma grande quantidade de animais. Entre eles, inúmeras aves. Patos de várias espécies, garças, marabus, pelicanos e cegonhas gigantes.
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A equipe do programa passou a manhã toda pelas trilhas do parque, viu vários animais e até avistou os elefantes, mas eles estavam muito longe. À tarde, todos percorrem novamente as trilhas pra tentar chegar mais perto dos elefantes.
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No caminho, uma floresta que parece ter saído de um conto de fadas: são as acácias amarelas. O interessante da árvore é que o tronco é verdinho de cima abaixo. E quando a gente passa a mão fica uma espécie de pozinho amarelo na mão.
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“Esta árvore tem uma característica muito interessante que é estar coberta de clorofila. E, portanto, o tronco é como se fosse uma folha gigante e faz a função da fotossíntese. E o pozinho amarelo, então, é clorofila”, conta Vasco.
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Gorongosa tem 54 ecossistemas diferentes. De florestas fechadas a vastas pradarias. E foi em uma área com poucas árvores e capim baixo que a equipe avista os gigantes do parque.
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Dois dias a procura e finalmente os elefantes são encontrados. A manada fica a mais ou menos uns 500 metros de onde a equipe parou. Não é aconselhável chegar muito perto porque a informação é que muitos deles sobreviveram à guerra, um período de matança indiscriminada de animais. E, por isso mesmo, o homem é considerado inimigo.
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Ta aí a prova: que memória tem o elefante! Ele jamais esquece! Por isso, os cuidados são redobrados, apesar de estar lá em paz. A manada se divide e um pequeno grupo vai na direção da equipe. Os elefantes africanos são os maiores animais terrestres do planeta. Podem chegar a quatro metros de altura e pesar mais de seis toneladas.
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James Byrne, um dos diretores do parque, diz que estes elefantes provavelmente foram poupados da matança porque as presas são pequenas.
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“Durante a guerra civil, os elefantes com presas grandes foram caçados para que o marfim fosse vendido para a compra de armas. Então, hoje, muitos dos que nós temos aqui têm presas pequenas e os caçadores não têm muito interesse neles”, comentou o diretor de mídia de Gorongosa.
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Para a sorte da equipe, os elefantes passam a pouco mais de cem metros de distância, mas não se incomodam com a equipe. Querem mesmo é chegar a uma poça de lama para se refrescar do calor de quase 35°C.
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Turistas da Nova Zelândia também acompanharam o desfile dos elefantes e ficaram maravilhados. “Nós visitamos muitos parques. Estamos viajando pela África há quase oito meses e este parque é lindo”, afirmou uma turista.
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Tato conhece como poucos os caminhos de Gorongosa e a rotina dos bichos. Durante anos, capturou e matou animais do parque para sustentar a família de sete filhos. Hoje, trabalha como guia. Ele leva a equipe do programa por trilhas ainda fechadas aos turistas para ver outros gigantes desta área.
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E, às margens do Rio Urema, outro predador muito temido em Gorongosa é avistado: o crocodilo do Nilo.
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O Rio Urema é cheio de crocodilos. Para chegar perto da margem, a equipe foi com muito cuidado porque os crocodilos percebem a presença humana e imediatamente entram na água. A equipe é que não pode entrar nessa água porque senão vira comida de crocodilo.
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Os répteis podem chegar a seis metros de comprimento. E, nos dias de sol, se aquecem nas praias do rio. Apenas os hipopótamos nadam nessas águas sem ser importunados pelos crocodilos. As duas espécies são como vizinhos que se toleram.
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“Temos grandes crocodilos aqui. Provavelmente, a maior coleção de grandes crocodilos do mundo. Eles são sobreviventes natos, portanto, são aqueles que, talvez, tenham sofrido menos no período da guerra civil”, revela Vasco.
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Ainda faltam 14 anos para que o projeto de restauração de Gorongosa seja concluído e o parque devolvido ao governo de Moçambique em condições de se sustentar apenas com o turismo. Até o momento, os avanços são visíveis. Mas ainda há grandes desafios pela frente.
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“A população em volta do parque é grande e cresce rápido. Essas pessoas precisam de terras e de comida. É exatamente o que a gente tem aqui. Então, o nosso maior desafio é equilibrar as necessidades dessas pessoas com as necessidades dos animais e das paisagens de Gorongosa”, explica James Byrne.

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