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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

ANGOLA: "A SAGA RUI MACHETE"



O pedido de desculpas de Rui Machete

Carlos Pombares |
10 de Outubro, 2013 
A colonização portuguesa em Angola, mascarada no tipo de colonização “de povoamento”, desenvolveu sempre o carácter explorador da colonização. 

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Para além da exploração da força de trabalho dos povos nativos, tinha o objectivo marcante de exploração das riquezas naturais e, em determinado período, o trafico de populações sujeitas ao regime hediondo da escravatura.

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O governo português dividiu o território angolano como entendeu, e doava as terras aos donatários colonizadores, privilegiando sempre as melhores. Estes utilizavam a mão-de-obra africana escrava ou contratada.
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Era um traço comum em todo território nacional o contraste entre o bem-estar e conforto da comunidade portuguesa, sobretudo nos centros urbanos, e a miséria e péssimas condições de vida e salubridade das senzalas, num revoltante contraste civilizacional entre as duas comunidades.
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Nos limites que a consciência humana suporta, muitas foram as formas de resistência à penetração colonialista, que culminaram na violenta e prolongada luta armada de libertação nacional. Conjugada com a luta das outras colónias portuguesas, este tornou-se no factor determinante da independência das colónias e, consequentemente, da liberdade do povo português.
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No presente, Portugal, país muito pobre, arreganha-se perante as ex-colónias como um arauto dos valores da democracia europeísta e, ao mesmo tempo, sonhador, declara-se indemne aos factores tóxicos da corrupção e imune a agentes corruptos, corruptores ou corruptíveis. 
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Mas os comportamentos travestem-se, pois sobram-lhes imensos exemplos, desses que chegam até nós, de políticos, inclusive parlamentares e figuras públicas portuguesas, altamente corruptas. Que moral tem, pois, Portugal para, em matérias desta natureza, dar lições às ex-colónias? Faz o que digo, não faças o que faço?
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A atitude da imprensa portuguesa, de determinados políticos e muitas outras figuras públicas portuguesas, que verberaram irracionalmente contra o pedido de desculpas apresentado por um governante português a Angola, não é nada mais que o sofisma da humilhação que eles sentem naquelas palavras relativamente ao Povo Angolano. 
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Em  boa verdade, não foi tanto pelo facto do desrespeito pela separação dos poderes constitucionais portugueses, mas pela humilhação de um pedido de desculpas aos angolanos. A soberba irracional dessa gente nunca lhes permitiu pedir perdão ou desculpas ao Povo Angolano pelos maus tratos, humilhação e desonra infligidos durante tantos anos de ditadura e exploração colonial. 
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Depois de uma vergonhosa retirada do país, não escondendo toda a sua incompetência, apenas lhes sobrou uma réstia de sentimento colonialista que remeteu o país para uma segunda guerra fratricida, na qual até se assumiram como agentes activos, manobrando algumas forças da sua elite militar e combativa.
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A falácia do argumento evocado não é mais do que a árvore que esconde as entranhas da pantanosa floresta política portuguesa. Tal como o Papa humildemente pede perdão pelos crimes dos seus sacerdotes, nunca seria demais que os governantes e políticos portugueses em consciência tivessem a humildade de também pedirem perdão e apresentarem as suas sinceras desculpas, não apenas ao Povo Angolano, mas tornando-as extensivas a todos os povos das ex-colónias. 
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Foram estes povos que, em conjunto, permitiram aos senhores políticos portugueses serem agora muito zelosos na obediência à separação de poderes da sua Constituição.

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