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sábado, 14 de dezembro de 2013

"O IMPAGÁVEL RICARDO ARAÚJO PEREIRA"


"Filhos duma grande coadopção"

O palavrão do ano

Alguém ouviu, no decorrer deste ano, desabafos do género: "Estes bandidos do governo levaram-me o 13.º mês. Filhos duma grande coadopção"?
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Os linguistas da Porto Editora organizam, desde 2009, uma votação para eleger a palavra do ano. Trata-se de uma iniciativa, e eu não tenho nada contra iniciativas. Pelo contrário, sou um velho apreciador de iniciativas. No entanto, está em curso um escândalo linguístico, e comigo não contam para o encobrir. 
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A palavra, que é escolhida segundo critérios de relevância e frequência de uso, sairá do seguinte lote de candidatas: bombeiro, coadopção, corrida, grandolada, inconstitucional, irrevogável, papa, piropo, pós-troika e swap. Imagino que a perplexidade do leitor seja tão grande como a minha. 
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Uma lista das palavras mais utilizadas este ano da qual não consta, por exemplo, o vocábulo "gatunos", que credibilidade tem? 
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Para não falar, é claro, nas palavras que estes linguistas, por vil racismo semântico, deixam sistematicamente de fora. Palavras que, na sua maior parte, estão dicionarizadas e têm uma utilização muito mais frequente do que qualquer das finalistas. 
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Alguém ouviu, no decorrer deste ano, desabafos do género: "Estes bandidos do governo levaram-me o 13.º mês. Filhos duma grande coadopção"? Ou: "Já é a segunda talhada que me dão na reforma. Se fossem mas era todos para o piropo"? Com quem convivem estes linguistas?
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Claro que algumas palavras escolhidas tiveram bastante utilização. Por exemplo, "papa", na frase frequente: "Se usarmos sempre a mesma fralda talvez sobre dinheiro para comprar papa". 
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Ou "corrida", na previsão cada vez mais comum: "Esta gente, se não toma cuidado, ainda vai ser corrida à paulada." Mas certas palavras não foram utilizadas de todo. Irrevogável, por exemplo. Peço desculpa mas não se pode concluir do que aconteceu que a palavra tenha sido utilizada. 
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Se eu disser: "O meu primo Serafim é extremamente galocha", duvido que se possa afirmar, com propriedade, que usei a palavra "galocha". 
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Proferir uma palavra independentemente do seu significado não deve ser suficiente para que se diga que a palavra foi utilizada. Mais: irrevogável é uma palavra que foi popularizada por quem faltou à palavra. 
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A palavra do ano pode ter saído da boca de quem não tem palavra nenhuma - o que, havendo justiça, seria até proibido. Sejamos mais exigentes com a língua, piropo!

RICARDO ARAÚJO PEREIRA

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