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domingo, 22 de dezembro de 2013

Prescindíveis


O Estado gasta 80% da receita em salários, pensões e vários subsídios sociais. Para diminuir o défice, é preciso diminuir a despesa, porque aumentar a receita, aumentando impostos, deixa a economia debaixo de água e prolonga a crise indefinidamente, ainda quando haja no mundo quem se atreva a emprestar um tostão a um país falido e sem emenda à vista.
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O Governo propôs diminuir 10% ao que até hoje os pensionistas recebiam, que já era pouco. Isto levantou um protesto ardente e o Tribunal Constitucional impediu que a medida se tornasse lei. Sempre com uma vénia ao tribunal, a direita declarou que se resignava e que iria procurar uma alternativa aos 400 milhões de euros que de repente lhe tiravam do bolso. As discussões jurídicas não interessam aqui, nem os cálculos financeiros dos peritos que por aí proliferam.
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O que interessa perceber é como se chegou a um ponto em que 80% da receita do Estado vai para funcionários e pensionistas. Deve ser, tem de ser, uma enorme quantidade de gente; e em princípio não se consegue imaginar que um país tão pequeno como Portugal realmente precise de tantas cabecinhas para o administrar (mesmo se contarmos com a Saúde e a Educação). A tão badalada "reforma do Estado" servia na origem para diminuir o funcionalismo, racionalizar a gestão e aliviar a economia do peso morto das contribuições. 
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Como todos se lembram, acabou mal e ficou só a multidão imensa de protegidos públicos, cada vez com menos dinheiro e, manifestamente, mais desesperada. Que fazer com ela? A única ideia que ocorreu ao Governo foi não tocar em nada de substantivo e continuar em mais pobre o que existia antes.
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Consta hoje que Vítor Gaspar compreendeu a tempo a futilidade e o perigo desse idiótico exercício e tratou de se recolher ao Banco de Portugal. Os que ficaram com certeza não compreenderam que perderiam fatalmente uma guerra contra o funcionalismo e os pensionistas. Por detrás do Tribunal Constitucional, além da Constituição, estão literalmente milhões de portugueses que já decidiram resistir até ao fim. Afinal de contas, que remédio têm senão defender a pele até à última extremidade? Mario Draghi já profetizou que a denominada "austeridade" iria durar 15 anos. 
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Experimente qualquer membro do poder que nos rege tirar 15 anos da sua vida e veja o que fica; a invectiva e o nevoeiro que cobrem a batalha da "crise" pouco a pouco criaram soldados sem armas, nem destino, que o país não segue e começa a esquecer. São prescindíveis.

Por Vasco Pulido Valente

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