Luís Filipe MenezesNos escritos soltos que vou lavrando nestas eletrónicas páginas tenho evitado entrar na escalpelização pura e dura, e direta, das acontecências  da política politiqueira, isto é da política que tem como principais atores as personagens mais ou menos mediáticas que levam urbi et orbi a mensagem partidária atrás da qual muitas vezes escondem a cupidez dos seus mais íntimos e inconfessáveis interesses.

Embora, após esporádico raide à verdade vermelhíssima do “grande educador da classe operária” nos idos de 1974-75, eu me tenha enclausurado no mais livre e gratificante solipsismo político, sempre tive a imodéstia de pretender saber quem é quem e quem vale na política portuguesa.

Muitas vezes me enganei nos meus critérios de validade política. Em instinto primário quase reflexo rejeitei homens como Ramalho Eanes e Lucas Pires, vindo mais tarde a elevá-los como políticos de eleição para quem honra e verdade eram compagináveis com a política quotidiana. Com Sá Carneiro, só após a sua morte, é que consegui decifrar a sua elevada estatura de homem livre e político com desígnio.

Em relação a Mário Soares e Alberto João Jardim nunca me enganei. Coloquei-os, desde cedo, no índex das minhas mais profundas rejeições. Por alguma razão especial? Poderia elencar miríades de atos políticos personificados por estes dois personagens que afetaram a minha forma de conceber a política, mas não é por aí que eu vou. 
Todos, uns mais outros menos, quando chegam ao poder, em algum momento falham ou hão de falhar na assunção das suas responsabilidades políticas. Não é pelos seus erros políticos que me abespinho contra os que nos têm governado, embora alguns, como o iluminado da Madeira, raramente acerte nas decisões políticas.  
O aspeto que mais me toca tem a ver com o foro psicológico. É para mim inaceitável que alguns se julguem dotados de um especial dom de governação que os torna excecionais. Sem eles a Pátria em geral e a coisa pública em particular fenecem num caos desordenado. 
Esses políticos, possuidores de um ego maior que a dívida pública portuguesa, têm a ousadia de se julgarem insubstituíveis ou especialmente dotados para reger o poder. Para estes pseudoiluminados o poder político é a roupa que vestem à semana e com que vão à missa ao domingo. Depois de mim o dilúvio dizem eles para quem os quer ouvir esquecendo-se que o cemitério está cheio de quem se julgava insubstituível.
Mas estes dois diáconos na nossa confraria política têm hodiernamente os seus seguidores – Luís Filipe Menezes e Fernando Seara. Também estes dois consideram que a res publica portuguesa não pode prescindir da sua presciência política, do seu fervoroso empenhamento, da iluminação da sua inteligência.

Menezes e Seara, os illuminatti da atualidade lusitana, julgam-se suseranos à espera que a plebe os eleja como condutores na luta pela modernidade política. Estão enganados e não sabem que a luta pela modernidade política se faz pela elevação cultural de um povo e não através da ação de condutores iluminados.

Políticos que se eternizam nas redes do poder julgam-se salvadores da Pátria; não são mais que simples salvadores dos seus interesses imediatos. Administrar a política como causa própria descamba, não raras vezes, para o nepotismo e a autocracia encapotada. São raros os homens que encaram a política como missão patriótica, a vivem plenamente em acertos e desacertos e que regressam à sua vida anterior como o guerreiro regressa a casa depois de muitas guerras.

Menezes e Seara fazem parte da força mediática da política.  Não interessa onde estar, querem é estar. Custa-lhes regressar ao anonimato pois, quais viciados em mediatismo, não conseguem ser felizes sem as luzes da ribalta a iluminar-lhes os passos.

Não querem abandonar os papéis principais do filme político; não lhes chega ser figurantes, querem estar na ribalta até ao momento em que a luz dos holofotes deslacem as maquilhagens com que escondem as suas rugas políticas.

Não lhes chega a sensação de serviço público que bem ou mal feito levaram a cabo noutras paragens. Querem perpetuar-se nos palcos da festa mesmo contra o espírito da lei que tentou prevenir tais desmandos.

Menezes e Seara são dois políticos inteletualmente cabotinos que necessitam de uma galeria, de um público para manifestarem a grandiosidade da sua auréola de seres especiais. Pois, só quem se julga especial, não aprende a inteligir o momento da retirada. Querem morrer em combate como os velhos guerreiros da antiguidade. Só que o que era sentido de vida para os antigos Gregos é mera ilusão falaciosa para estes dois atores menores da política portuguesa.

Menezes e Seara não sabem, nem ninguém lhes disse, que não existem políticos providenciais tal como não existem homens insubstituíveis. Querem torpedear a lei porque se julgam únicos servidores válidos da coisa pública.

Colocaram um problema ao tribunal constitucional. Só espero que a dimensão de dignidade política e elevado serviço público que tem pautado a ação daquele tribunal se mantenha e impeça estes dois políticos “profissionais” de ferir uma lei que foi feita exatamente para evitar os vícios inerentes à eternização no poder daqueles que se julgam fadados para no poder ad eternum se entronizarem.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico.