Translator

sexta-feira, 28 de março de 2014

DANOS COLATERAIS


Apanhando o governo de surpresa, o secretário de Estado da Administração Pública, José Leite Martins, organizou anteontem de manhã um briefing com vários jornalistas. O encontro serviu para esclarecer os media acerca de legislação que visa tornar definitivos, com efeitos a partir de Janeiro de 2015, os actuais cortes nos salários dos funcionários públicos, bem como nas pensões da CGA e da Segurança Social. 
.
Tal legislação seria aprovada no próximo dia 31, em conselho de ministros extraordinário. A meio da noite, a pretexto do funeral oficial de Adolfo Suárez, cerimónia onde o governo se fará representar ao mais alto nível, circulou a informação de que o conselho de ministros extraordinário seria adiado.
.
José Leite Martins, inspector-geral de Finanças desde 2004, não é um desses rapazes que chegaram ao governo pela tômbola da sorte. É alguém que conhece bem a máquina do Estado: foi director do departamento de assuntos jurídicos do MNE entre 1994 e 2000 e chefe de gabinete do primeiro-ministro Durão Barroso entre 2002 e 2004. Em suma, não parece que tenha organizado o briefing sem pensar nas suas consequências. 
.
Os jornalistas retiveram a garantia de que... «não haverá reduções adicionais de rendimento dos reformados em Portugal.» Afinal, o mesmo que garantira o líder parlamentar do PSD.
.
À hora do briefing, Passos Coelho estava em Maputo, a ministra das Finanças em Washington, e Poiares Maduro desconhecia o que se passava. Ao ser informado, Passos Coelho não escondeu o desagrado. Portas, idem. 
.
Na Gomes Teixeira, a avaliar pela reacção de Luís Marques Guedes («Isto é manipulação»), o governo parecia à beira de um ataque de nervos. Hoje, a imprensa económica não poupa o ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares.

No Económico, Bruno Proença escreve:
.
«[...] Luís Marques Guedes, usa da velha táctica: dispara sobre os jornalistas. A estratégia de matar o mensageiro não resulta. Desde logo porque é óbvio para todos a incompetência do Governo na condução dos processos políticos. Não há coordenação no Executivo. Percebeu-se ontem que ninguém sabe o que se anda a passar nos ministérios, nem sequer o primeiro-ministro. 
.
Portanto, antes de atacarem os jornalistas, organizem-se. Sejam profissionais. Para que servem as dezenas de assessores, adjuntos, secretárias e chefes de gabinete que estão ao serviço do Governo e pagos com os nossos impostos? Trabalhem mais e melhor. 
.
Mas ainda mais importante, é a questão substantiva. O Governo tem problemas de comunicação porque tem dificuldades em falar a verdade. Prefere as meias verdades, os jogos de sombra, as medidas apresentadas aos bocados e mal explicadas, tudo especialidades do ministro Marques Guedes. [...]»
.
O governo está preocupado com o «alarmismo injustificado» provocado por Leite Martins. Injustificado? Entretanto, o PS quer ouvir (e muito bem) o secretário de Estado da Administração Pública no Parlamento.
.

Sem comentários:

Enviar um comentário