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quinta-feira, 6 de março de 2014

JOSÉ MILHAZES ESCREVEU


“Pequenos” Pormenores Que Podem Ajudar a Explicar a Crise Entre a Rússia e UE



A situação na Crimeia continua estagnada, o que joga a favor de Moscovo, que vai, a pouco e pouco, pela calada, ocupando aquela península ucraniana. Serguei Choigu, ministro da Defesa da Rússia, diz que na Crimeia não há soldados russos, mas deve pensar que as pessoas são idiotas. Pois caso contrário, essas pessoas chamam-lhe mentiroso.
 
Entretanto, gostaria de chamar a atenção para um pormenor que, pode não ser visível à primeira vista, mas é importante neste jogo de xadrez político-militar entre a Rússia, de um lado, e a UE, outras estruturas europeias, por exemplo, a OCSE, e EUA de outro: a origem social e política dos políticos russos e europeus. Deixo de lado os dos EUA, porque não conheço suficientemente bem a situação.
 
Do lado russo, é cada vez mais evidente o domínio avassalador dos “siloviki”, antigos ou actuais agentes dos serviços secretos russos, e dos seus descendentes nas estruturas do poder político e económico. Ao realizar a política externa actual, Putin, outro ex-KGB, materializa o sonho de desforra desse clã político. Depois da queda da URSS, esse foi um dos sectores da sociedade que mais humilhado foi, porque era o mais odiado pelos soviéticos. 
 
Porém, como os novos poderes na Rússia não fizeram uma lustração, nem tomaram qualquer atitude especial contra esses agentes, estes rapidamente voltaram a sentir a sua força, principalmente depois da chegada ao poder de Vladimir Putin.
 
Com os pais dos ex-KGB´s, vieram os filhos e netos, com a mesma vontade de desforra pela citada humilhação. Dmitri Rogozin, actual vice-primeiro-ministro do governo russo, encarregado pelo complexo militar-industrial, é um dos exemplos mais notórios da nova geração. Nacionalista, xenófobo, não esconde que o principal objectivo é modernizar o complexo militar-industrial russo de forma a fazer com que este país, como ele diz, “seja respeitado” a nível internacional, ou seja, recupere o poderio do passado soviético.
 
Claro que tudo isso é feito a pretexto dos “interesses nacionais”, “da defesa dos cidadãos russos estejam onde estejam”, etc. A justificação da sua política externa está bem patente na Crimeia: se os outros fazem (os EUA no Iraque, Afeganistão, Líbia), nós também podemos fazer, tanto mais na “zona de interesses particularmente vitais” da Rússia no antigo espaço soviético.
 
Do outro lado da “barricada”, temos a União Europeia, a OSCE e outras organizações europeias, principalmente depois do alargamento da UE ao Leste da Europa. Durante este processo, nessas estruturas ingressaram numerosos funcionários e dirigentes originários de países do antigo campo socialista: Polónia, Hungria, Roménia, Lituânia, Estónia, etc.
 
Ora este sangue novo injectado na decrépita Europa é indispensável, mas trouxe um problema. Muitos desses funcionários e políticos do Leste da Europa guiam-se, nas suas actividades, também pelo ajuste de contas com a Rússia, que, às vezes, têm raízes seculares. E é inútil dizer-lhes que a Rússia já não é a URSS, que o comunismo foi enterrado, que o actual povo russo não é culpado dos crimes do regime estalinista, como o povo alemão não é culpado dos crimes do nazismo.
 
É minha modesta opinião, que o choque entre estes dois campos é um dos factores que tem vindo a dificultar o diálogo entre a Rússia e a União Europeia.
 
O diálogo foi incomparavelmente mais fácil nos anos de 1990, quando as forças pró-ocidentais na Rússia estavam no poder e os siloviki ainda não tinham recuperado o poder. Mas, as forças pró-ocidentais russas mostraram ser o que foram: a criação de um regime oligárquico, e a UE e, principalmente os EUA, aproveitaram a onda para fazer irresponsáveis experiências sociais e políticas na Rússia, não se coibindo de humilhar os russos. Afinal, segundo a grande “onda intelectual” então na moda, a História acabou e a vitória da democracia e dos valores ocidentais estava no papo.
 
O resultado está à vista e, por isso, é urgente a cooperação das forças que na UE e na Rússia defendem uma política mais sensata, equilibrada e calma. Afinal, todos somos europeus e o que nos une é mais do que o que nos desune.


P.S. Isto é uma opinião para discussão, não é uma verdade absoluta.
 
 
José Milhazes
05 de Março de 2014

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