A questão agrava-se, porque a criatura, para além de possidónia, é pífia.
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A maneira como se move
ou anda nos corredores da Assembleia, e se calhar na rua, se é que se
sujeita andar a pé na via pública (ainda não tem liteira nem sédia
gestatória...), para dar um ar blasé (sei lá!...) e as expressões faciais são paradigmáticas de um ser recheado de inconseguimentos... e de outras palavras fora do comum (ou do léxico) para impressionar...
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As declarações
proferidas a propósito da presença ou não dos militares da «Associação
25 de Abril» na sessão dos 40 anos da Revolução, no conteúdo e no tom,
são bem a definição do inconseguimento com que exerce as funções de segunda figura do Estado.
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Trata os cidadãos em causa e os que a escutam como imbecis desprezíveis. Como ousam importunar Sua Excelência?
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Houve convite como nos outros anos, "o resto não existe". Brilhante na réplica aos visados e na resposta a uma pergunta!!!
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E como se não chegasse a insolência e a falta de polimento, acrescentou, se queriam usar da palavra "o problema é deles!".
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Só faltou recomendar-lhes que fossem a alguma outra parte ou bater com a mão na anca e dizer queriam?!!!
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Citando Santo Agostinho, adaptando, a exemplo de um membro do Governo, também poderemos dizer Assunção locuta causa finita, colocando o nome da criatura no lugar de Roma... sempre dá alguma grandeza...
Assunção Esteves, possidónia.
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Assunção Esteves é uma personagem no sentido plano e caricatural do
termo. Nos romances, as Assunções surgem nos capítulos secundários para
dar um colorido sociológico ou histórico ao cenário onde a personagem
principal actua.
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Ora, a nossa Assunção Esteves representa o colorido cómico de um
certo Portugal, o Portugal da comédia snob, do nariz empinado por
questões de nascimento. Sim, é o Portugal que brinca aos pobrezinhos,
mas também é o Portugal que quer brincar aos riquinhos. Assunção Esteves
encaixa na segunda espécie.
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Julgo que aqueles que brincam aos pobrezinhos têm uma palavra gira
para descrever esta segunda categoria: possidónios. Palavra giríssima,
sei lá.
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A segunda figura do estado recusa admitir que o seu pai era alfaiate.
Aquilo que devia ser motivo de orgulho é motivo de vergonha. Como é
evidentíssimo, a filha de um pobrezinho não pode chegar ao topo, é
contranatura.
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Apesar da origem humilde, Assunção Esteves aceitou o ethos
pseudo-aristocrático da "Lesboa" que se repete em todas as povoações
portuguesas com mais de, vá, 10 habitantes. E a mutação não se ficou
por aqui. Segundo uma peça da Sábado, a Presidenta tem aquela obsessão
típica pelo luxo. Ele é roupa de alta-costura, ele é carteiras que
custam 10% da sua reforma (valor da pensão: 7200 euros por 10 anos de
trabalho), ele é um corrupio de assessores que trata como escravos
coloniais, ele é gastos sumptuários: assim que chegou à Presidência da
Assembleia, Assunção Esteves mudou a casa de banho do seu gabinete para
não usar a mesma retrete do antecessor. Que magno problema viu Assunção
Esteves no bumbum de Jaime Gama?
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Os regimes mudam, mas este Portugal não morre. A comédia social
parece que tem o dom da imortalidade. Tal como em 1950, ainda temos
fidalgos a viver em bolhas sem qualquer contacto com a realidade. E,
tal como em 1950, ainda temos fidalgos wannabe que querem à força
brincar aos riquinhos para depois brincarem aos pobrezinhos. País
giríssimo, sei lá.
Henrique Raposo
In: Expresso