«Assisti
anteontem, com grande dedicação profissional, e grande paciência à
entrevista do sr. primeiro-ministro à TSF e à TVI . E assisti também ao
palratório das cabecinhas de serviço, que tentaram extrair um vestígio
de sentido ao que tinha sido dito e redito pelo nosso adorado guia.
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Mas Pedro
Passos Coelho, com o seu arzinho de menino que aprendeu bem a lição,
não saiu da cartilha do costume provavelmente para não se meter em mais
sarilhos, daqueles que o PS gosta de rilhar no seu covil.
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Com a maior
prudência não prometeu nada, não explicou nada e nem sequer previu fosse
o que fosse. Ficou no quarto escuro da banalidade ou da irrelevância e
levou o país com ele; nem uma luzinha, bruxuleante ou não, brilhou
naquela deprimente melancolia. O PSD retirou deste estado semicomatoso que o homem estava calmo.
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Às
perguntas substanciais Pedro Passos Coelho respondeu sempre que o
futuro a Deus pertence. As decisões do Tribunal Constitucional pertencem
a Deus, como o défice e a dívida, como o crescimento, como o programa
cautelar, como a vida da gente que anda por aí sem vida.
.
O
Altíssimo, a seu tempo, resolverá tudo e ele, um simples
primeiro-ministro, não quer exceder as suas competências. Deixou, por
exemplo, de “embirrar” com o Tribunal Constitucional, coisa que sem
dúvida o tribunal lhe agradece desvanecido.
Não comentou a
política do dr. Cavaco, ou a ausência dela, para não tocar em tão alta e
veneranda personagem. Até o comportamento errático da sra. Christine
Lagarde não lhe mereceu mais do que o adjectivo moderado de “estranho”,
como se a sra. aparecesse com um chapéu novo ou o desafiasse para um
passeio a Sintra.
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Nem a pequena intriga partidária em que se
criou conseguiu que ele acordasse para a realidade. Acha Rui Rio e o
resto dos protestatários do partido um magnífico “activo” a não perder. E
acha prematuro que se discutam agora as “listas” para a “Europa”.
As
relações dele com Paulo Portas são hoje um mar de rosas: nem Portas lhe
tenciona criar o mais vago problema; nem ele a Portas. Principalmente, a
propósito de algumas sinecuras sem consequência.
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Quanto ao
resto, o primeiro-ministro pensa que este seu mandato consolidou as
finanças, modernizou a economia e nos preparou para voos que espantarão o
mundo. Existe, é claro, a difícil questão do desemprego e da miséria
geral. Mas basta saber somar e subtrair, como assevera o dr. Medina
Carreira: onde imaginava a Pátria que ele podia arranjar o dinheiro,
senão nos bolsos de quem o tinha?
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E com certeza um dia destes
desaparece: o futuro a Deus pertence.»
Vasco Pulido Valente, Público