“Pequenos” Pormenores Que Podem Ajudar a Explicar a Crise Entre a Rússia e UE
A situação na Crimeia
continua estagnada, o que joga a favor de Moscovo, que vai, a pouco e
pouco, pela calada, ocupando aquela península ucraniana. Serguei
Choigu, ministro da Defesa da Rússia, diz que na Crimeia não há
soldados russos, mas deve pensar que as pessoas são idiotas. Pois
caso contrário, essas pessoas chamam-lhe mentiroso.
Entretanto, gostaria de
chamar a atenção para um pormenor que, pode não ser visível à
primeira vista, mas é importante neste jogo de xadrez
político-militar entre a Rússia, de um lado, e a UE, outras
estruturas europeias, por exemplo, a OCSE, e EUA de outro: a origem
social e política dos políticos russos e europeus. Deixo de lado os
dos EUA, porque não conheço suficientemente bem a situação.
Do lado russo, é cada
vez mais evidente o domínio avassalador dos “siloviki”, antigos
ou actuais agentes dos serviços secretos russos, e dos seus
descendentes nas estruturas do poder político e económico. Ao
realizar a política externa actual, Putin, outro ex-KGB, materializa
o sonho de desforra desse clã político. Depois da queda da URSS,
esse foi um dos sectores da sociedade que mais humilhado foi, porque
era o mais odiado pelos soviéticos.
Porém, como os novos
poderes na Rússia não fizeram uma lustração, nem tomaram qualquer
atitude especial contra esses agentes, estes rapidamente voltaram a
sentir a sua força, principalmente depois da chegada ao poder de
Vladimir Putin.
Com os pais dos ex-KGB´s,
vieram os filhos e netos, com a mesma vontade de desforra pela citada
humilhação. Dmitri Rogozin, actual vice-primeiro-ministro do
governo russo, encarregado pelo complexo militar-industrial, é um
dos exemplos mais notórios da nova geração. Nacionalista,
xenófobo, não esconde que o principal objectivo é modernizar o
complexo militar-industrial russo de forma a fazer com que este país,
como ele diz, “seja respeitado” a nível internacional, ou seja,
recupere o poderio do passado soviético.
Claro que tudo isso é
feito a pretexto dos “interesses nacionais”, “da defesa dos
cidadãos russos estejam onde estejam”, etc. A justificação da
sua política externa está bem patente na Crimeia: se os outros
fazem (os EUA no Iraque, Afeganistão, Líbia), nós também podemos
fazer, tanto mais na “zona de interesses particularmente vitais”
da Rússia no antigo espaço soviético.
Do outro lado da
“barricada”, temos a União Europeia, a OSCE e outras
organizações europeias, principalmente depois do alargamento da UE
ao Leste da Europa. Durante este processo, nessas estruturas
ingressaram numerosos funcionários e dirigentes originários de
países do antigo campo socialista: Polónia, Hungria, Roménia,
Lituânia, Estónia, etc.
Ora este sangue novo
injectado na decrépita Europa é indispensável, mas trouxe um
problema. Muitos desses funcionários e políticos do Leste da Europa
guiam-se, nas suas actividades, também pelo ajuste de contas com a
Rússia, que, às vezes, têm raízes seculares. E é inútil
dizer-lhes que a Rússia já não é a URSS, que o comunismo foi
enterrado, que o actual povo russo não é culpado dos crimes do
regime estalinista, como o povo alemão não é culpado dos crimes do
nazismo.
É minha modesta opinião,
que o choque entre estes dois campos é um dos factores que tem vindo
a dificultar o diálogo entre a Rússia e a União Europeia.
O diálogo foi
incomparavelmente mais fácil nos anos de 1990, quando as forças
pró-ocidentais na Rússia estavam no poder e os siloviki ainda não
tinham recuperado o poder. Mas, as forças pró-ocidentais russas
mostraram ser o que foram: a criação de um regime oligárquico, e a
UE e, principalmente os EUA, aproveitaram a onda para fazer
irresponsáveis experiências sociais e políticas na Rússia, não
se coibindo de humilhar os russos. Afinal, segundo a grande “onda
intelectual” então na moda, a História acabou e a vitória da
democracia e dos valores ocidentais estava no papo.
O resultado está à
vista e, por isso, é urgente a cooperação das forças que na UE e
na Rússia defendem uma política mais sensata, equilibrada e calma.
Afinal, todos somos europeus e o que nos une é mais do que o que nos
desune.
P.S. Isto é uma opinião
para discussão, não é uma verdade absoluta.
José Milhazes
05 de Março de 2014