Daniel Oliveira
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CNN
, insuspeitos de qualquer antipatia pela "causa ucraniana" que
mobiliza tantos jornalistas portugueses, deram a conhecer o conteúdo de escutas
telefónicas entre a responsável pela política externa da União
Europeia, Catherine Ashton, e o ministro dos Negócios Estrangeiros da
Estónia, Urmas Paet.
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As escutas tinham sido divulgadas pela comunicação
social russa, o que levanta novas questões sobre o comportamento dos serviços
de espionagem na Europa. Mais uma vez, o comportamento da NSA norte-americana
e a suavidade da reação dos Estados europeus deixa pouco espaço de manobra
para grandes indignações.
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Em resumo, é isto: os snipers que
atingiram mortalmente manifestantes e polícia na Praça da Independência, em Kiev, foram os mesmos e há
fortíssimas suspeitas de não estarem ligados ao regime deposto. Pelo
contrário, é mais provável que fossem agentes provocadores ligados aos
revoltosos.
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Aquilo que parecia ser uma teoria da conspiração lançada pelos
russos ganha assim uma nova credibilidade. Depois de explicar que as balas só
podem ter sido disparadas pelas mesmas pessoas, Paet diz a Ashton, sobre a
atual coligação governamental: "Há agora um cada vez maior entendimento
de que, por de trás dos snipers, não estava Yanukovych, mas alguém da
nova coligação".
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Por desconhecimento, muitos ficarão incrédulos.
Afinal de contas, sempre que cidadãos ocidentais veem muita gente numa praça
imaginam que ali só pode estar o povo em luta pela liberdade e pela democracia.
Não compreendendo que os conflitos internos de cada país - seja no Egito ou
na Ucrânia - não se resumem a dicotomias tão simples e primaveris, que se
resolve com um like no facebook. Sobretudo em países com conflitos
étnicos, sujeitos a fortes interesses económicos e com pouca tradição
democrática.
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A oposição ucraniana, agora no governo provisório,
não é só - nem sobretudo - composta por democratas. A maioria está engajada
em partidos tão corruptos e tão dependentes do poder dos oligarcas como o governo deposto.
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E
estes são os melhorzinhos. Os outros, que tiveram um papel absolutamente
central na EuroMaidan e na tomada violenta de vários símbolos do poder, estão
ligados a organizações bem mais sinistras do que se possa imaginar. O método
de eleição de alguns membros do governo provisório, baseado na
"democracia de Esparta", pode parecer apenas ingenuidade e anedota.
Mas não é. Corresponde a um movimento político antidemocrático que ganhou
força nos últimos anos.
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Vamos então conhecê-los. Um é o grupo paramilitar
abertamente xenófobo Pravyi Sektor ("Sector
Direito"), herdeiro do "Tryzub" (Tridente) e liderado dor
Dmytro Yarosh. Durante a revolução, Yarosh foi acusado de pedir o apoio de
Dokka Umarov, líder da fação da guerrilha techechena que está ligada à
Al-Quaeda. A acusação está ainda a ser investigada (pode tratar-se duma
fraude). Mas a sua organização, bastante violenta, teve um papel central no
armamento das milícias paramilitares durante os protestos. Milícias que
entretanto foram reconhecidas oficialmente pelo governo provisório.
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O Pravyi
Sektor prometeu ilegalizar o Partido das Regiões (que estava no
poder) e o Partido Comunista. Outro grupo é a Assembleia Nacional
Ucraniana-Auto Defesa do Povo Ucraniano (Una-Unso), fundamentalistas ortodoxos,
nacionalistas, antissemitas e defensores de um governo autoritário para país.
Os seus militantes estão organizados em brigadas voluntárias, com treino na
luta da Tchéchénia ao lado dos guerrilheiros.
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Mas a força política mais importante entre os radicais
nacionalistas é, de longe, a União Pan-Ucrâniana "Liberdade",
conhecida apenas por Svoboda ("Liberdade"). A Svoboda
é assumidamente neonazi e foi fundada em 1991, com o sugestivo nome de
Partido Social-Nacional da Ucrânia. Quem não chegue lá pelo nome pode sempre
ver o seu símbolo e ficar esclarecido. Na mesma altura em que
várias organizações de extrema-direita do leste europeu fizeram o devido lifting,
para estarem em condições de ser apoiadas ou pelo menos toleradas por algumas
potências ocidentais, o PSNU foi transformado em Svoboda pelo
seu líder Oleh Tyahnybok.
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O Svoboda é considerado pela Centro Simon
Wiesenthal o quinto partido mais antissemita do mundo. É abertamente
xenófobo, defendendo a segregação de judeus e polacos. Também é, claro está,
homofóbico. O seu deputado Igor Miroshnichenko, assumido admirador de Röhm,
Strasser e Goebbels, declarou que "a homossexualidade será banida deste
país, pois é uma doença que ajuda à difusão da SIDA". Este mesmo
deputado descreveu, na sua página de Facebook, a atriz Mila Kunis (ucraniana
de origem, com pai russo e mãe judia) como uma "zhydovka", termo
insultuoso para referir mulheres judias.
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O Svoboda defende não apenas
a ilegalização do aborto, mas a criminalização da sua defesa pública. Defende
também a ilegalização de qualquer partido comunista, o direito universal a
andar armado, o regresso da Ucrânia ao nuclear e o tal "democracia
espartana". A tudo isto junta as adesões à União Europeia e à NATO,
consideradas absolutamente condizentes com o seu posicionamento político. O
que diz qualquer coisa sobre a imagem de exigência democrática que a União
Europeia está a passar para fora.
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O corte do líder do Svoboda com o
resto da oposição, com quem entretanto se reconciliou em nome dos
"valores europeus", deu-se em 2004, quando fez, num discurso
transmitido pela televisão, um elogio a resistência ucraniana na II Guerra
por ter lutado contra "a mafia moscovita-judaica".
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Deixando esta
pungente memória patriótica: "Eles punham as suas armas ao ombro, iam
para a floresta e lutavam contra os moscovitas, os alemães, os judeus e outra
escumalha que nos queria tirar o Estado da Ucrânia." Nos protestos do
EuroMaidan os manifestantes do Svoboda exibiram, a abrir os seus
cortejos, orgulhosos, a fotografia de Stepan Bandera, líder nacionalista da
Ucrânia durante a II Guerra, que colaborou com a deportação para os campos de
extermínio nazis de centenas de milhares de judeus, comunistas e ciganos.
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Para tentar ganhar votos à muito pouco recomendável mas agora transformada
eheroína do Ocidente Yulia Tymoshenko, o não mais recomendável Vicktor
Yushenko chegou a dar o título de herói da Ucrânia a Bandera, retirando-o
depois de indignados protestos das organizações judaicas internacionais. A
mesma União Europeia que agora abraça os pupilos de Bandera condenou, na
altura, Yushenko por esta homenagem.
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Que não haja confusões. O Svoboda não
é um pequeno grupelho. Teve 10,5% dos votos nas últimas eleições, elegeu 38
deputados e conquistou mais de 30% em três províncias do extremo ocidental da
Ucrânia. Na "heróica" Lviv, onde começou a revolta contra o governo
e de onde é o seu líder, os neonazis tiveram mais de 50% dos votos. Animador,
não é?
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Depois dos protestos estes grupos quase sem
paralelo na Europa Ocidental foram postos à margem? Pelo contrário. O Svoboda
tem um dos vice-primeiro-ministros, Oleksandr Sych. O seu cavalo de batalha
foi a ilegalização do aborto, mesmo em caso de violação.
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Quando esta sua
posição foi contestada, defendeu que as mulheres "devem ter um tipo de
vida que evite o risco de violação, incluindo não beberem álcool e não andarem
com companhias pouco recomendáveis". Tem ainda o secretário do Conselho
Nacional de Segurança e Defesa, os ministros do Ambiente e da Agricultura e o
Procurador Geral da Ucrânia.
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Isto para além do ministro da Defesa, o
almirante Igor Tenjukh, que não sendo militante tem apoiado o partido nas
suas iniciativas públicas. Já o Pravyi Sektor tem o seu sinistro
líder, Dmytro Yarosh, como vice-secretário do
Conselho Nacional de Segurança e Defesa. E o Una-Unso tem o ministro da
Juventude e Desporto e a presidente da Comissão de Anticorrupção Nacional. Ou
seja: três partidos à direita do PNR e da Aurora Dourada dirigem, num governo
que ninguém elegeu, a Defesa, o combate à corrupção e a Procuradoria
Geral.
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Agora, que a poeira começa a assentar, talvez se
perceba melhor que aqui não há heróis e vilões. Muito menos num país que teve
de escolher entre as deportações e a fome de Estaline e o Holocausto de
Hitler. As coisas são mais complicadas, apesar das imagens televisivas da
revolta dos russos da Crimeia aparecer sempre como animalesca e violenta,
enquanto a dos ucranianos surge como uma festa azul e
amarela reprimida pelas forças do Estado. Perante o crescente poder dos nazis
no aparelho de Estado ucraniano, a minoria russa tem boas razões para pensar
que não terá lugar nesta nova Ucrânia. Quanto a mim, não sei se me agrada que
a Ucrânia do senhor Tyahnybok e do seu Svoboda tenha lugar
na União Europeia. Para pior já basta assim.
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Deixo para amanhã o prefácio de Cavaco Silva para
os próximos vinte anos.